Vida Justa já chegou ao Porto e prepara núcleos noutros pontos do país

Redação, 24 fev 2026 (Lusa) — Três anos depois da primeira manifestação nas ruas do Vida Justa, o movimento cresce em apoiantes e alarga horizontes geográficos, com um núcleo no Porto e outros a caminho.

O aumento dos preços foi o mote para a convocatória de 25 de fevereiro de 2023, que trouxe as periferias para o centro da cidade, desembocando em frente à Assembleia da República.

“Ó Costa, escuta, queremos vida justa”, gritou-se na altura, era o governo outro, liderado pelo socialista António Costa, ao qual milhares de manifestantes exigiram “políticas concretas” para responder à crise e “fazer parte da decisão”.

O movimento já vinha ganhando forma e força há uns meses, a partir dos bairros periféricos da Grande Lisboa, mas ainda era desconhecido do grande público.

Hoje, três anos volvidos, o Vida Justa é presença regular e constante nos territórios mais vulneráveis da Grande Lisboa e tornou-se uma voz coletiva com capacidade de mobilização em torno de temas como a habitação ou a atuação policial.

O Vida Justa recebe “dezenas de solicitações por dia” e conta com “algumas centenas de pessoas a trabalharem diariamente”, refere à Lusa Nuno Ramos Almeida, estimando que a “real influência” do movimento chegue a milhares de outras.

Não se contabilizam militantes, mas as formas de organização e atividade ajudam a ter uma noção da adesão: nas assembleias chegam a participar 300 pessoas, de 40 bairros, exemplifica o responsável pelos contactos com a comunicação social.

Além disso, o movimento está hoje presente em mais zonas e mais bairros e até já chegou ao Porto, onde existe um núcleo desde há uns meses, estando em curso tentativas semelhantes noutros pontos do país, mais perto de se concretizarem em Aveiro e Algarve.

A expansão a “bairros pobres de maioria branca” ou onde estão mais presentes as comunidades cigana ou migrante implica mudanças na abordagem, nota Nuno Ramos de Almeida.

Isso mesmo confirma Aline Rossi, a partir do bairro de Aldoar, no concelho do Porto, onde há “uma realidade muito particular”, desde logo na configuração e na composição, não se verificando os mesmos “marcadores sociais” étnicos dos bairros de Lisboa.

O Porto — assinala — “tem diferenças tanto nos bairros como na forma de reivindicar e nos problemas que são mais críticos nesse momento” e, além disso, tem as chamadas ilhas, “uma realidade particular”.

O movimento “é muito recente” no Porto, onde organizou a primeira reunião em dezembro. “Desde então, foi um processo muito acelerado, organizar assembleias de moradores e escutas nos bairros (…). Ainda estamos nessa fase inicial de estruturar o movimento, que é uma fase super importante, de criar aliados locais, de aproximar aos moradores, das assembleias, de criar espaços de aprendizado e coletivização da política”, explicita.

O ponto de partida foi Aldoar, onde já têm aliados, nomeadamente a associação Abraço, mas também já estão no bairro do Cerco e querem chegar à zona de Campanhã em geral e à Biquinha, no concelho vizinho de Matosinhos.

O núcleo “segue a mesma espinha dorsal” do Vida Justa na Grande Lisboa, com o qual tem aprendido para aplicar à realidade local. “Existe uma coordenação nacional e existe um alinhamento para as ações, para o posicionamento político”, assevera Aline Rossi.

“Não queremos de modo algum entrar no bairro como quem ensina a se fazer política. Nós acreditamos em construir a política horizontalmente, desde a base”, sublinha, assumindo o ritmo “muito lentamente”.

Com cerca de dez militantes e “uma base mais alargada” de apoiantes, o objetivo “não é ser porta-voz das reivindicações de ninguém, é criar e fomentar esse poder popular desde o bairro, para fora do bairro”, realça Alice Rossi, destacando que o Vida Justa se distingue dos “movimentos de pauta única”, sejam feministas, antirracistas, antifascistas, “cada um focando numa frente” específica.

“O lema do Vida Justa é ‘estamos juntos, estamos fortes’. (…) O objetivo do movimento é agregar tudo isso e reivindicar uma vida mais justa e isso inclui muita coisa, inclui transporte, inclui direito à comunidade, direito à cultura, o direito a uma vida tranquila, salários mais dignos e habitação digna”, elenca.

O Vida Justa não prevê sair às ruas em nome próprio em breve, mas integrará a manifestação do coletivo Casa para Viver, convocada para 21 de março, em defesa do direito à habitação.

*** Sofia Branco (texto) e André Sá (vídeo), da agência Lusa ***

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