
Caracas, 09 mai 2019 (Lusa) – Deputados da oposição na Venezuela deslocaram-se esta noite para junto das instalações da Helicoide, onde alegadamente estará detido o vice-presidente da Assembleia Nacional, Edgar Zambrano, e alertaram a comunidade internacional para a violação da imunidade parlamentar.
Pouco mais de uma hora após a detenção de Edgar Zambrano, junto à sede do partido Acão Democrática, os deputados decidiram ir pelas 21:00 (02:00 de hoje em Lisboa) para as instalações da prisão polÃtica, Helicoide, onde se juntaram também dezenas de jornalistas.
A deputada da oposição Dennis Fernández foi muito clara quando disse que já tinha alertado para o que podia acontecer, “hoje consumou-se a violação da imunidade parlamentar”.
Afirmou que os deputados vão estar ali a dar a cara, a acompanhar o vice-presidente e a denunciar a violação da imunidade parlamentar. “O que aconteceu é um sequestro”, disse.
A deputada explicou que não houve ainda nenhuma informação das autoridades sobre Edgar Zambrano: “Não há comunicação com o deputado. Não conseguimos falar com ele. Nem com os jovens que estavam com ele”.
Entretanto, na televisão pública, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Constituinte, já admitiu a detenção de Edgar Zambrano.
Num programa com uma plateia de pessoas a rirem-se, disse que Edgar “foi um dos chefes do golpe” e ainda brincou com a estranha detenção, dizendo que o deputado se queixou que estava a ser sequestrado, mas levaram-no num reboque, disse perante uma plateia à s gargalhadas.
A deputada Dennis Fernández quis deixar claro aos jornalistas que as autoridades venezuelanas são responsáveis pelo que venha a acontecer a Zambrano.
“Estaremos aqui, muito atentos ao que vai acontecer e queremos saber o que se passa com ele, e que nos deixem falar com ele”, afirmou.
Fez ainda um alerta à comunidade internacional, lembrando que se trata do vice-presidente da Assembleia Nacional.
Questionada sobre se sabia de alguma ordem judicial de detenção, a deputada disse que não. “Não temos informação nenhuma. Nem temos comunicação com ele. Não sabemos o que se está a passar”.
Já foi dado conhecimento do acontecimento a todos os organismos internacionais, incluindo a ONU a OEA e a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos.
A deputada alertou que o vice-presidente do parlamento “toma medicamentos para a hipertensão” e “tem uma infiltração no joelho que está a tratar”.
Sobre um possÃvel diálogo que pudesse ser proposto entre o regime de Nicolás Maduro e a oposição, Fernández disse que “não se pode dialogar com quem não respeita os direitos humanos e a imunidade parlamentar”.
Como presidente da Comissão de Assuntos Internacionais do ParlaSul, William Dávilla afirmou que o Mercosul nasceu para defender a democracia e por isso está a ser preparado um documento para “denunciar a violação da imunidade parlamentar”.
“Isto que aconteceu aqui hoje tem um grande impacto noutros parlamentos de outros paÃses. Uma decisão de um tribunal que violenta a Constituição para evitar a imunidade parlamentar de um deputado. Essa denúncia já esta no Mercosul”, afirmou.
O deputado disse mesmo que foi exigido que o Mercosul tome uma posição ainda hoje. E alertou a comunidade internacional que “deve estar atenta”.
“Mais que nunca temos de estar ferreamente unidos. Isto é uma ditadura. Uma tirania. Nós não temos medo e vamos continuar lutando com toda a disciplina (…) com fé e a convicção de que isto vai mudar. Neste momento não temos um Governo, temos uma ditadura”, disse, junto à s instalações do Helicoide.
Funcionários do Serviço Bolivariano de Inteligência da Venezuela (Sebin, serviços secretos) detiveram hoje o vice-presidente do parlamento venezuelano, Edgar Zambrano, anunciou o próprio na sua conta do Twitter.
“Fomos surpreendidos pelo Sebin, como nos negamos a sair da nossa viatura, usaram uma grua para transportar-nos de maneira forçada diretamente ao Helicoide (prisão do Sebin). Os democratas nos manteremos em pé de luta”, escreveu.
Numa outra mensagem, enviada pouco antes, o deputado alertava o povo venezuelano de que se encontrava dentro da sua viatura na sede do partido Ação Democrática, em La Florida (centro-leste de Caracas) “cercados pelo Sebin”.
A 03 maio último o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) da Venezuela acusou o vice-presidente do parlamento de vários crimes, como traição à pátria e conspiração, por ter apoiado uma tentativa de golpe de Estado contra o Presidente do paÃs, Nicolás Maduro.
Segundo o Supremo, o deputado opositor Edgar Zambrano é responsável pelos crimes de “traição à pátria, conspiração, incitação à revolta, rebelião civil, associação para cometer delito, usurpação de funções, incitamento público à desobediência das leis e ódio continuado”.
Estes crimes estão previstos no Código Penal venezuelano e na Lei Contra Criminalidade Organizada e Financiamento do Terrorismo, explicou.
Edgar José Zambrano RamÃrez nasceu em Barquisimeto, Venezuela, em 20 de julho de 1955. É advogado e polÃtico, sendo atualmente deputado e vice-presidente do parlamento. Entre 2016 e 2018 foi presidente da Comissão Permanente de Defesa e Segurança deste órgão.
É, também, vice-presidente do partido opositor Ação Democrática, um dos mais antigos do paÃs.
Na terça-feira, 30 de abril, Edgar Zambrano apareceu publicamente em Altamira (leste de Caracas), junto ao autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, e o polÃtico opositor Leopoldo López, apelando à população para ir para as ruas com vista a depor o Presidente Nicolás Maduro.
Juan Guaidó, que se autoproclamou em janeiro e teve na altura o apoio de mais de 50 paÃses e desde a primeira hora dos Estados Unidos, desencadeou na madrugada de terça-feira passada um ato de força contra o regime de Nicolás Maduro em que envolveu militares e para o qual apelou à adesão popular.
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