
Évora, 18 fev 2023 (Lusa) — Longe de casa e da famÃlia há quase um ano, uma ucraniana e os três filhos estão a salvo da guerra e refazem a vida em Évora, mas sonham com o regresso ao seu paÃs.
Em abril de 2022, quando falou à agência Lusa pela primeira vez, Liudmyla Simochova só sabia pronunciar-se em ucraniano, o que requereu a ajuda de um tradutor. Agora, quase um ano depois, já ‘arranha’ o português e faz-se entender.
“Quando a guerra acabou, eu voltar ao meu paÃs”, afirma a refugiada, que frequentou em Évora um curso para aprender a lÃngua.
Liudmyla e os três filhos – Luca, David e Violetta – deixaram a capital da Ucrânia, Kiev, onde residiam, no inÃcio de março de 2022, pouco depois do inÃcio da invasão russa do paÃs, e vivem em Évora desde abril do ano passado.
Quando chegaram à cidade alentejana, foram viver com um casal neerlandês e, agora, estão numa quinta situada na periferia da cidade, emprestada durante alguns meses pelo proprietário.
À medida que dá a entrevista, a ucraniana opta por falar em inglês, por se sentir mais confortável e ainda não ser fluente em português, e conta à Lusa que chegou de carro a Portugal. Esperava ficar pouco tempo, mas a continuidade da guerra fê-la mudar de ideias.
“Não pretendia ficar seis meses ou 10 meses, mas, agora, olho para o meu paÃs e, por exemplo, sei que lançaram ‘rockets’ em Kiev, na minha cidade, na minha área. Li nas notÃcias e, se eu voltar, não sei o que pode acontecer”, realça.
Sem planos sobre quanto tempo vai permanecer longe de casa e da famÃlia, Liudmyla, de 45 anos e divorciada, afirma com todas as certezas saber que um dia, quando os estrondos da invasão russa da Ucrânia se calarem, quer voltar para o seu paÃs, onde ficaram a sua mãe e a sua irmã.
Por agora, fica ainda em Portugal, porque a guerra não terminou: “Eu agora vivo aqui, adaptei-me, aprendo a lÃngua, terminei os nÃveis A1 e A2 de português e tento falar, adaptar-me e encontrar novos amigos para a minha famÃlia, para os meus filhos”, salienta, elogiando os portugueses, “muito gentis e abertos”.
Quanto à escolha do paÃs, Liudmyla diz que “não queria ficar perto” da Ucrânia, por não saber “se a guerra muda” e “começa noutro paÃs” vizinho, e recusa uma nova mudança, porque essa opção “é como se fosse começar de novo”.
A refugiada trabalha no clube de natação Aminata, na área da limpeza, e os filhos frequentam a escola. Violetta, de 17 anos, e David, de 15, estão na Secundária Severim Faria, enquanto Luca, o mais novo, com 12 anos, está na Básica Manuel Ferreira PatrÃcio.
Apesar da ajuda que recebeu dos portugueses e de gostar do paÃs, ‘nem tudo são rosas’. Os dois filhos mais velhos, ambos no 10.º ano, têm tido uma adaptação difÃcil e “ainda não têm amigos na escola”.
“É difÃcil porque, agora, já não são crianças”, conta, indicando que Violetta e David até “falam com crianças portuguesas, mas pouco”, se for em inglês, mas os amigos “ficaram na Ucrânia”. Com eles, mantêm contacto por telefone ou ‘online’.
Já com Luca, que está no 6.º ano, a adaptação “é mais fácil”, porque, além de falar “um pouco” de inglês, “tenta falar português também” e, com uma “mistura de inglês e português”, já “tem muitos amigos”.
Tal como o filho mais novo, também Liudmyla afirma que já fez novas amizades em Portugal, sobretudo no trabalho e na vizinhança, e já pensa voltar à área em que trabalhava na capital ucraniana, onde era gerente de vendas numa imobiliária.
“Quando começar a falar português, talvez tente ser gerente de vendas em Portugal também”, acrescenta.
Parco em palavras, o jovem Luca diz à Lusa que gosta da sua escola e que tem lá “bons amigos e professores portugueses”, admitindo que “talvez quando a guerra acabar volte para a Ucrânia”.
A Rússia invadiu a Ucrânia no dia 24 de fevereiro de 2022, há quase um ano, com o argumento de que queria “desnazificar” e “desmilitarizar” o paÃs vizinho.
A guerra — chamada por Moscovo de “operação militar especial” – foi condenada pelos chamados paÃses do Ocidente, que têm mandado armamento para ajudar Kiev a combater Moscovo, além de imporem sanções a empresas, indústrias e personalidades russas.
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