Treinador do Torreense destaca dia “mais feliz da carreira” e espera que “demorem menos anos” para feito idêntico

Torres Vedras, Lisboa, 05 jun 2026 (Lusa) – Luís Tralhão, treinador do Torreense, admitiu que o dia da inédita conquista da Taça de Portugal de futebol foi o mais feliz da carreira desportiva, mostrando-se esperançoso de que não “demore tantos anos” a existir um feito idêntico.

“É o dia mais feliz da minha carreira desportiva”, afirmou em entrevista à Agência Lusa, recordando a conquista da Liga Revelação pelos ‘azuis grená’, em 2024/25, mas reconhecendo que a vitória na prova rainha foi “um marco histórico no clube” e no futebol português.

O Torreense fez história ao derrotar o favorito Sporting, por 2-1, após prolongamento — na final da 86.ª edição da Taça de Portugal, disputada no dia 24 de maio, no Estádio Nacional, em Oeiras –, tornando-se na primeira equipa do segundo escalão a erguer o cetro da segunda prova mais importante do calendário do futebol português.

Kevin Zohi adiantou o emblema da II Liga aos quatro minutos, com Luis Suárez a igualar aos 54, levando a decisão para o prolongamento. 

Nesse período, o conjunto do Oeste sentenciou a partida na sequência de uma grande penalidade convertida por Stopira, aos 113 minutos, num lance que já tinha resultado na expulsão de Maxi Araújo.

“A final da Taça de Portugal é atingir um patamar estratosférico. Vejo a Taça de Portugal como um feito histórico e inédito, que vai ser difícil repetir, mas não vejo o fim. Foi a Taça de Portugal, mas não queremos que as pessoas fiquem a conhecer o Torreense porque ganhou a Taça em 2025/26 e nunca mais se ouviu falar. No futebol, trata-se de consistência, de continuar a elevar o nível”, notou, assegurando haver ainda “muito para desbravar”.

Depois de um percurso imaculado, em que eliminou o primodivisionário Casa Pia, o Torreense voltou à final da Taça de Portugal 70 anos depois da última e única participação até à data. 

Na longínqua época de 1955/56, a formação do Oeste acabaria por ceder perante o FC Porto, 0-2, numa caminhada que não mais teve paralelo até à temporada que agora findou.

E sobre o dia mais glorioso da história dos ‘oestinos’, o técnico do Torreense até revelou uma tranquilidade pouco comum.

“Lembro-me de estar incrivelmente calmo durante o jogo inteiro. Até muito mais calmo do que nos jogos da II Liga. Sabia que era a primeira vez que estava a orientar um jogo perante quase 40 mil pessoas e sabia que não me podia distrair. Tive essa sensação durante o jogo inteiro”, confessou.

E prosseguiu.

“Quando acabou o jogo, não fiquei naquele estado eufórico. Obviamente fui a correr para ao pé da bancada porque era ali o centro do acontecimento, mas lembro-me perfeitamente do David Bruno vir ter comigo e me dizer ‘o que é que acabámos de fazer?’. Isso era o que a malta sentia toda”, complementou.

Apesar da tranquilidade que revelou ter tido, Tralhão confidenciou terem existido momentos de maior emoção.

“Não estava muito emocional naquele dia, poucas lágrimas verti, mas quando começo a subir a escadaria e vejo a minha família toda a chorar, aí é uma memória que vai ficar para o resto da minha vida. Não me consegui conter”, revelou também.

Mas a subida dos 104 degraus do Estádio Nacional para erguer a Taça foi apenas um dos momentos altos de um dia que considera inesquecível.

O outro, recorda, foi a festa em Torres Vedras, onde o clube acabaria por ser recebido nos paços do concelho ainda na mesma noite.

“É impossível não me lembrar da nossa chegada a Torres Vedras e da ida à Câmara. Eram milhares de pessoas. Devemos ter demorado, da entrada do estádio até à Câmara, quase uma hora”, brincou, aludindo a um trajeto que, em circunstâncias normais, demoraria poucos minutos a ser efetuado.

“As pessoas estavam eufóricas, vi pessoas mais idosas a chorar, tal como vi crianças super felizes com o equipamento do Torreense e a sentir aquela emoção toda. Isso é o que nos alimenta a alma. Sentir que fizemos naquele dia tanta gente feliz. Não só eu como treinador, mas como toda a gente que trabalha no clube sente esse orgulho”, justificou.

Questionado sobre quanto tempo demorará a acontecer um feito idêntico, Luís Tralhão confessou esperar que “seja menos”.

“A Taça de Portugal é uma competição que é pródiga neste tipo de jogos, em que a equipa teoricamente mais fraca ganha à mais forte. Vamos acreditando e sonhando todos os anos que há sempre uma equipa sensação”, disse, esperando que “não demore tantos anos a acontecer”.

E, quase duas semanas depois da inédita vitória na Taça de Portugal, que colocou o Torreense no lote dos 14 vencedores da prova rainha, a ‘ficha já caiu’.

“Hoje tenho uma noção maior. Tivemos uma semana muito agridoce, um misto de emoções positiva, e, depois, negativa. Como qualquer ser humano, temos sempre mais tendência para olhar para o negativo do que para o positivo”, atirou, recordando um período em que, apesar do triunfo na Taça de Portugal, a equipa acabaria por ver cair por terra o objetivo de subir à I Liga portuguesa de futebol.

Ainda assim, e já depois de referir que “às vezes, se desvalorizam os feitos” alcançados, Luís Tralhão afiançou começar a “ter noção” do impacto da conquista da Taça de Portugal.

“É um feito brutal e que ao longo do tempo as pessoas se vão recordar”, assinalou, certo de que o Torreense continuará “nas bocas do mundo” pelo facto de, devido à vitória na prova rainha, ter garantido a presença na Supertaça Nacional, diante do campeão FC Porto, e a inédita qualificação direta para a fase de liga da Liga Europa.

“Chegar à final e vencê-la… Creio que o nome dos jogadores, tal como o meu, de quem marcou, de quem entrou e de quem fazia parte do plantel, vai ficar imortalizado”, rematou.

 

RYRA // FIG

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