
Lisboa, 28 nov 2024 (Lusa) – Três óperas e cerca de 20 concertos, um deles dedicado a mulheres compositoras, constituem a programação do Teatro Nacional de S. Carlos (TNSC) para o primeiro quadriénio do próximo ano, que irá circular pelo paÃs.
A apresentação da programação esteve hoje a cargo do diretor de Estudos Musicais do TNSC, o maestro João Paulo Santos, coordenador da “comissão artÃstica”, que inclui ainda os maestros da Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP), Antonio Pirolli, e do Coro do São Carlos, Giampaolo Vessella, em substituição da direção artÃstica, que está vacante.
João Paulo Santos, que trabalha no teatro desde os seus 16 anos, já habituado “à s dificuldades financeiras”, referiu o desafio que constitui não apresentar as programações lÃrica e sinfónica em sala própria, referindo-se à s apresentações noutras cidades como um “semear” de novos públicos.
O TNSC é o único teatro lÃrico português e tem uma vocação nacional, salientou o maestro e pianista. João Paulo Santos quer que “o sair” de Lisboa “faça sentido”, porque o que se “está a produzir diz respeito a todos”.
O cartaz operático conta com “Il Trionfo del tempo e del disinganno”, de Handel, estreada em 1707, numa produção já apresentada em 2004, “L’elisir d’amore”, de Donizetti, estreada em 1832, e “Jenufa”, de Janácek, estreada em 1904, que será apresentada numa encenação de Robert Carsen.
A ópera de Donizetti, sob a direção musical de Bruno Borralhinho e encenação de Mário João Alves, será apresentada em fevereiro próximo, no Teatro das Figuras, em Faro, e no Municipal de Vila Real, e ainda, no dia 1 de março, no Centro Cultural e de Congressos nas Caldas da Rainha.
A de Leos Janácek, sob a direção musical de Jaroslav Kyzlink, estará, nos dias 21 e 23 de março, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, e, finalmente, a de Handel, sob a direção musical de Michael Hofstetter e encenação de Jacopo Spirei, terá três récitas em abril, no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, e duas no Theatro Circo, em Braga.
A programação sinfónica celebra duas efemérides, os 500 anos do nascimento de Luis Camões, poeta que inspirou compositores como Lopes-Graça, Croner de Vasconcelos e Schumann, e o 250.º aniversário do compositor e pianista João Domingos Bomtempo (1775-1842), ativista liberal, que foi diretor do Conservatório Nacional e, como pianista, um intérprete “importante na passagem técnica do pianismo de Beethoven para o de Liszt”, disse João Paulo Santos.
Questionado quanto à celebração dos 500 anos da morte do navegador Vasco da Gama que inspirou óperas e cantatas, Santos não afastou a possibilidade, referindo que “está ainda no limbo”. “Temos muito que fazer, e foi um bocado em cima da altura”, acrescentou.
O tema da “guerra”, “infelizmente óbvio, dada a situação”, é um dos eixos da programação de concertos. “Fausto”, “Consonâncias” e “Mulheres Compositoras” são outros vetores da programação.
Os concertos na temática “Consonâncias” têm em conta os espaços onde se apresentam e são constituÃdos por três peças, com a participação de um solista da Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP) e um cantor que “interpretará, certamente árias de ópera do século XVIII”.
Sobre o eixo “Compositoras”, João Paulo Santos referiu “o imenso repertório de qualidade extrema de compositoras”, que “começaram a escassear nas salas de concerto nos anos 1930 e foram banidas durante a Segunda Grande Guerra” (1939-1945).
“Não é uma questão de género, mas porque é muito bom”, justificou o maestro que referiu o seu interesse nesta matéria, e qualificou como “surpreendente” o concerto “Sob o Signo de Euterpe”, pela OSP dirigida pela maestrina Rita Castelo Branco, sendo solista a violoncelista Isabel Vaz, no próximo dia 24 de abril, no Teatro Aberto, em Lisboa. O programa é constituÃdo por peças de Fanny Mendelssohn, Henriëtte Bosmans, Augusta Holmès, Lili Boulanger, Vitezslava Kaprálová e Florence Price.
O Teatro Aberto não será a única sala lisboeta onde o S. Carlos apresentará as suas produções sinfónicas. Outros espaços são a Igreja de S. Roque, a Academia das Ciências de Lisboa, o edifÃcio onde funcionou o Tribunal da Boa-Hora, que vai acolher, a partir de janeiro próximo, os serviços administrativos do Organismo de Produção ArtÃstica (Opart), que tutela o TNSC, a OSP e a Companhia Nacional de Bailado.
No edifÃcio do antigo Tribunal, no Chiado, serão instaladas duas salas de trabalho para a OSP e uma ‘box’ no claustro, que será a sala de ensaio Vasco Dantas. A sala para o Coro do S. Carlos será a antiga sala de audiências, explicou a presidente do Opart, Conceição Amaral.
O edifÃcio do ex-Tribunal acolherá também alguns concertos e conferências.
A responsável referiu-se à descentralização do TNSC, como “estratégico”: “Um alargamento da missão de serviço público”, em que se apresenta como “fundamental, trabalhar com os públicos e os profissionais espalhados pelo paÃs, onde temos equipas extraordinárias”, sublinhou Conceição Amaral.
A responsável espera “frutos” desta descentralização. “Estamos a lavrar este chão e este tempo de produção, que é muito pequeno, estamos a trabalhar com os parceiros, e não podemos nunca achar que isto vai morrer. São sementes que estamos a lançar, não podemos lá deixar um ovo que se abre naquele dia, voltamos e vimo-nos embora, não pode ser”, afirmou.
“Vamos lá deixar uma semente”, declarou Conceição Amaral. O custo desta “digressão” teve um reforço orçamental anual de 600.000 mil euros, acrescentou.
O TNSC, que tem estado em itinerância desde setembro passado, já esteve em 16 palcos, disse aos jornalistas Conceição Amaral.
O teatro, em Lisboa, deverá reabrir em finais de 2026 ou inÃcios de 2027, adiantou a responsável.
Questionada pela agência Lusa sobre quando será aberto concurso para o novo diretor artÃstico do TNSC, depois da saÃda em julho último de Ivan van Kalmthout, Conceição Amaral disse estarem a fechar a documentação para o lançar “ainda este ano”.
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