
Porto, 27 out 2026 (Lusa) — O Teatro Carlos Alberto, no Porto, acolhe de quarta-feira a sábado o espetáculo “Festa”, apresentado em estreia absoluta e definido pelo encenador Marcio Abreu como uma “festa das linguagens”.
A companhia brasileira de teatro (que assume as minúsculas) e o Teatro Experimental do Porto (TEP) juntaram-se para encontrar um lugar que, a partir do ensaio para a imprensa, mostra um encontro em cima de uma dualidade entre luto e alegria, luta e cedência, violência e festa, através de várias linguagens, das que cabem na língua portuguesa às que cabem nas artes performativas.
De resto, o Teatro Nacional São João tem recebido o TEP desde há vários anos, tendo esta companhia e a companhia brasileira de teatro cruzado a programação de 2024 — os primeiros com “As grandes comemorações quase oficiais do período histórico habitualmente conhecido como PREC (Processo Revolucionário em Curso)”, os segundos com “Sem Palavras”.
Este espetáculo, de criação coletiva, tem como intérpretes Grace Passô, Gonçalo Amorim, João Miguel Mota e Yuck Miranda, com cenografia e figurinos de Catarina Barros.
Nadja Naira assina o desenho de luz e a assistência de direção, num espetáculo em que a obra de Francisco Mallmann é central.
Em conversa com os jornalistas, Marcio Abreu e Gonçalo Amorim assinalaram as ressonâncias que acontecem entre a sala de ensaios, e o palco, e o mundo, da recente reeleição de Lula da Silva às acampadas em Porto e Lisboa, e mesmo pela Europa fora.
“Nós não cedemos um milímetro nos nossos direitos e deveres como cidadãos políticos. Nós não somos artistas de sofá nem de teclado. Nós somos artistas do território das linguagens. Este é o nosso espaço de trabalho. Não fazemos comícios, trabalhamos linguagens, colocamos questões. […] Somos artistas implicados no que se passa”, lembra Gonçalo Amorim.
Guiado por um sentido de “vitalidade”, explica Gonçalo Amorim, “Festa” foi ganhando contornos em diálogo com a obra poética de Francisco Mallmann, de “Haverá festa com o que restar” até “Tudo o que leva consigo um nome”.
“Temos este título que já é, em si, uma provocação, já suscita alguma coisa, gera expectativas. É também uma decisão dramatúrgica, que essa palavra suscite perguntas e expectativas. A peça não é a representação de uma festa, mas como fomos chegando e essa noção se foi dando ao longo do processo. O que acontece é mais o que está nos limites de uma possível festa, nas bordas de uma festa, o que escapa de uma festa ou de possíveis festas”, explica Marcio Abreu.
O encenador percorre essa “linha ficcional que é tudo o que acontece a partir do anúncio de uma perda, de uma morte, de um desaparecimento”, e é explorado em palco na interligação de linguagens cénicas, da performance à dança, do teatro ao canto, e de vários corpos de várias nacionalidades, brasileira, portuguesa e moçambicana.
A peça foi sendo construída em conjunto com toda a equipa artística e ainda com mais pessoas, durante as várias residências desde o ano passado, em cima destas mortes não só literais como também “metafóricas, simbólicas, perdas, desaparecimentos e lutas”.
“Falamos a partir dessa consciência de um certo trágico do nosso tempo, que vivemos hoje. Já trouxe essa provocação para o processo criativo, como pensar o campo das linguagens como um território, vivendo num tempo em que o avanço das extremas-direitas, do conservadorismo, nos captura também pela linguagem”, reflete.
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