
Taipé, 22 out 2026 (Lusa) — Cinco pessoas foram acusadas em Taiwan de tentar agredir um humorista conhecido por ridicularizar o Presidente chinês, Xi Jinping, e o Partido Comunista Chinês (PCC), alegadamente a mando de um indivíduo na China continental.
O humorista Huang Yihao contou à agência de notícias taiwanesa CNA que, em setembro, estacionou a motorizada numa viela quando um automóvel se desviou subitamente na sua direção, atingindo-o a ele e ao veículo.
Huang escapou a ferimentos graves, mas admitiu que o seu primeiro pensamento foi: “Será que é o PCC que anda atrás de mim?”.
Segundo o humorista, os ocupantes do automóvel saíram depois do veículo, pediram desculpa e convidaram-no a entrar, proposta que recusou.
Os cinco suspeitos, todos taiwaneses, são acusados de terem aceitado 450 mil dólares taiwaneses (mais de 12 mil euros) para “partir os braços e as pernas” de Huang, de forma a impedi-lo de atuar em palco, anunciou na quarta-feira o Ministério Público da cidade de Nova Taipé, no norte de Taiwan.
Os suspeitos, identificados apenas pelos apelidos Zheng, You, Huang, Fan e Liao, terão recebido instruções e financiamento de um indivíduo da China continental conhecido pela alcunha de “K”, segundo um comunicado dos procuradores.
De acordo com a investigação, “K” pediu a Zheng que recolhesse informações pessoais sobre o humorista e lhe provocasse ferimentos suficientemente graves para exigir hospitalização e impedir a atuação prevista para 20 de setembro.
Zheng instalou um dispositivo de localização na motorizada de Huang e seguiu os seus movimentos durante julho e agosto.
Após transmitir as informações a “K”, recebeu 250 mil novos dólares taiwaneses (6.800 euros).
Zheng e You planearam então simular um acidente de viação para ferir o humorista, atribuindo a execução do plano a outro homem, de apelido Huang, que recrutou Fan e Liao para o ajudar, segundo o comunicado.
Na tarde de 11 de setembro, Huang conduziu o automóvel, enquanto Liao filmava a partir do banco do passageiro e Fan vigiava uma viela.
O condutor imobilizou o veículo depois de ouvir o humorista gritar, mas Huang Yihao não sofreu ferimentos graves.
Insatisfeito com o resultado, “K” recusou pagar os restantes 200 mil novos dólares taiwaneses (5.400 euros), segundo os procuradores.
O Ministério Público pediu penas de prisão entre dois anos e sete meses e cinco anos e seis meses para os cinco arguidos.
O Gabinete para os Assuntos de Taiwan do Governo chinês não respondeu de imediato a um pedido de comentário.
Antes da alegada tentativa de agressão, também em setembro, duas outras pessoas foram acusadas de intimidação com perigo para a segurança pública e danos materiais, depois de alegadamente terem espalhado tinta e dejetos humanos, em maio, à entrada de um clube de comédia em Taipé onde Huang atuava, segundo a imprensa local.
Num vídeo divulgado na plataforma YouTube, o humorista compara Xi Jinping à personagem Winnie the Pooh e critica o PCC pela imposição da lei de segurança nacional em Hong Kong e pelos confinamentos decretados na China durante a pandemia de covid-19.
“Se as pessoas já são tratadas desta forma por criticarem o PCC, mesmo antes de este passar a governar Taiwan, como podemos esperar manter a nossa atual liberdade de expressão caso o PCC venha algum dia a controlar Taiwan?”, questionou Huang, na rede social Facebook, na quarta-feira.
O ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan classificou o incidente como “uma tentativa maliciosa de impor o silêncio político”, destinada a “criar um efeito intimidatório” e a “reduzir o espaço para a liberdade de expressão e o debate público”.
O Conselho para os Assuntos da China Continental de Taiwan “condenou veementemente” o recurso à “repressão transnacional” para prejudicar pessoas na ilha e advertiu que não haverá “absolutamente nenhuma tolerância” para quem participe nestes atos.
Em 2022, cinco homens acusados de atuar em nome do Governo chinês foram acusados nos Estados Unidos por alegados planos de vigilância e perseguição de dissidentes chineses.
Segundo o Departamento de Justiça norte-americano, os esquemas incluíam tentativas de prejudicar a candidatura ao Congresso de um opositor de Pequim.
A China considera Taiwan parte do seu território e não exclui o recurso à força para conseguir a reunificação.
Pequim e Taipé estão separados desde 1949, quando os nacionalistas chineses se refugiaram na ilha, após a derrota perante os comunistas na guerra civil chinesa.
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