
Évora, 09 jul 2021 (Lusa) — A procura e os preços do gado bovino têm sofrido oscilações durante a pandemia de covid-19, mas o que mais ‘assusta’ um produtor do Alentejo é a subida dos fatores de produção e eventuais problemas com exportações.
Os preços das matérias-primas “estão a ser um verdadeiro peso para toda a atividade”, alerta o empresário agrÃcola e dirigente associativo Diogo Pestana de Vasconcelos, em declarações à agência Lusa.
Com propriedades localizadas nos concelhos de Évora e de Viana do Alentejo, a Agrosava, empresa agropecuária dirigida por Diogo Pestana de Vasconcelos, tem como principal atividade a produção de bovinos e ovinos e possui mais de 1.000 cabeças de gado.
É na exploração situada perto de São Manços, no concelho de Évora, que são criados bovinos que resultam de cruzamentos das raças Mertolenga e Aberdeen-Angus para venda em leilão de gado e para cadeias de supermercados portuguesas.
Assinalando que “o campo nunca parou”, o empresário nota que, apesar da covid-19, “os animais comem todos os dias e têm que ser vistos todos os dias” e que, neste setor, “não é possÃvel fazer teletrabalho”.
“Claro que tivemos situações mais complicadas. Quando havia um contacto com um infetado, tÃnhamos que ficar em casa e, obviamente, não é fácil substituir pessoas [que trabalham] no campo”, salienta.
Diogo diz que os preços do gado “tiveram uma queda”, poucos depois do inÃcio da pandemia, devido à s incertezas então vividas, que “na pior altura”, no verão de 2020, foi de “10% a 15% em relação ao ano transato”.
“As exportações, na altura, pararam e, depois, recomeçaram e o preço voltou a subir, mas tivemos dificuldades também na gestão disso tudo”, frisa o também presidente da Associação dos Jovens Agricultores do Sul (AJASUL).
Segundo o responsável da Agrosava, o mesmo aconteceu com a procura, que “baixou um bocado”, com os vários perÃodos de confinamento, mas, como “as pessoas não param de comer”, os valores também já recuperaram.
Os preços e a procura já estão nos nÃveis anteriores à pandemia, mas o setor está agora “a braços com o crescimento dos fatores de produção”, em que o gasóleo atingiu “um preço perfeitamente proibitivo”, assim como as rações e os adubos, sublinha.
“Os adubos têm subidas mensais” e os agricultores não conseguem “fazer preço de adubo para 15 dias, porque os preços estão a subir todos os dias”, refere, considerando que o setor está agora “com graves problemas, mais do que no inÃcio da pandemia”.
Diogo Pestana de Vasconcelos defende que é preciso “tentar estabilizar os custos de produção”, pois argumenta que, com a seu aumento, o preço do gado também “tem tendência para subir, mas nunca compensa a subida exponencial dos custos de produção”.
“Não precisamos muito que os preços andem para cima e para baixo, precisamos é ter uma perspetiva estável”, o que, agora, não existe, devido à “grande escalada dos custos de produção e dos cereais”, insiste.
A par da recuperação dos preços e da procura, assegura o agricultor alentejano, as exportações estão “a dar uma grande ajuda ao mercado nacional” e são “um fator importante” para o setor.
“As exportações são basicamente para a bacia do Mediterrâneo” e, como Portugal tem “um clima igual” ao dos paÃses desse território, os animais “estão muito bem adaptados à s condições que lá vão encontrar”, disse.
O também presidente da AJASUL destaca a aposta de Portugal na produção de gado com “muita qualidade”, em que são utilizados animais de “raças autóctones cruzando com exóticas”, observando que “no estrangeiro pagam bem a qualidade superior dos animais”.
“Se o mercado continuar aberto para a exportação e não houver problema nesse aspeto, temos condições para manter o setor com alguma tranquilidade”, antevê, acrescentando que o paÃs “é deficitário em carne”, pelo que “convém manter a produção”.
O dirigente associativo confessa ainda estar expectante em relação à reforma da PolÃtica AgrÃcola Comum (PAC), esperando que se mantenham “as ajudas aos animais”.
A AJASUL, com sede em Évora e polos em Reguengos de Monsaraz e Portel, tem cerca de 1.000 associados, todos no distrito de Évora.
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