Setor de viagens moçambicano liga irregularidades em agências a riscos já comunicados ao Governo

Maputo, 08 jul 2026 (Lusa) – A Associação das Agências de Viagens e Turismo de Moçambique (Avitum) afirmou hoje que as suspeitas de branqueamento de capitais envolvendo agências de viagens, apontado num relatório oficial, reforçam alertas anteriormente feitos ao Governo sobre vulnerabilidades no setor.

“Num passado recente, a Avitum havia chamado a atenção do Estado moçambicano para a necessidade de proteger o licenciamento das agências de viagens apenas para moçambicanos ou para parcerias entre moçambicanos e investidores que tivessem como objetivo desenvolver o setor de forma significativa”, disse hoje à Lusa o presidente da associação, João das Neves.

A reação surge após a Lusa divulgar um relatório do Gabinete de Informação Financeira de Moçambique (GIFiM) identificando indícios de utilização de agências de viagens e turismo para alegados esquemas de branqueamento de capitais, exportação ilícita de capitais e fraude fiscal, envolvendo movimentações de, pelo menos, 58,2 mil milhões de meticais (805,5 milhões de euros) entre janeiro de 2022 e setembro de 2025.

Segundo o responsável, a preocupação apresentada às autoridades nacionais visava evitar que práticas identificadas noutros mercados fossem replicadas em Moçambique e garantir um melhor controlo da atividade.

“Infelizmente surgiram algumas agências estrangeiras que em pouco tempo se posicionaram como as agências que mais vendiam em Moçambique e em várias companhias aéreas sem terem nenhum histórico de penetração no nosso mercado, nessa altura verificamos que essas mesmas agências emitiam passagens de territórios internacionais sem partida, passagem ou chegada a Moçambique”, explicou, assinalando que o relatório veio agora “trazer à superfície” mais dados sobre um processo que a Avitum já considerava estranho.

Segundo João das Neves, a associação já havia defendido junto do Governo a restrição do licenciamento de agências de viagens e turismo a cidadãos moçambicanos ou a parcerias entre nacionais e investidores estrangeiros, como forma de mitigar práticas irregulares já identificadas noutros mercados e reforçar os mecanismos de controlo da atividade.

“Importa referir que a falta de estatísticas fiáveis e informação do mercado nunca permitiu uma análise sistemática das tendências e/ou informação que permitisse a Avitum saber o comportamento e atitude dessas agências”, assinalou, acrescentando que as empresas visadas não integravam a associação.

O responsável sublinhou que a associação se distancia das práticas descritas no relatório, que considera prejudiciais para as companhias aéreas, para as agências nacionais e para a economia.

Defendeu ainda o reforço da cooperação entre o Estado e as organizações representativas do setor, manifestando disponibilidade para colaborar com as autoridades no esclarecimento do caso e em iniciativas destinadas a reforçar os mecanismos de prevenção e controlo.

“O Governo deve reforçar a sua parceria com a Avitum como principal braço de controlo do sector e estimular que todas as agências sejam membros desta associação, porque, desta forma, é mais fácil controlar e orientar o setor”, disse.

“O fortalecimento do movimento associativo do sector é a forma mais eficaz de o Estado conseguir ter um parceiro estratégico no mercado para autorregular o mesmo com conhecimento, ponderação e equilíbrio”, concluiu o responsável.

A Lusa noticiou na secunda-feira que o GIFiM reconheceu fortes indícios de utilização de agências de viagens para branqueamento, exportação ilícita de capitais e fraude fiscal, após detetar 805,5 milhões de euros movimentados em três anos.

Num Relatório de Análise Estratégica, a que a Lusa teve acesso, o GIFiM escreve que empresas do setor receberam e movimentaram elevadas quantias, sobretudo em numerário, transferidas depois para contas bancárias em Moçambique tituladas por uma “organização internacional”, a partir das quais os fundos eram encaminhados para o estrangeiro.

 

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