
Maputo, 29 jun 2026 (Lusa) – A Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a maior de Moçambique, quer reunir mil cobras para produzir soros antiofídicos e reduzir gastos com a aquisição destes no exterior, mas necessita de apoio para apetrechar o serpentário, vandalizado nas manifestações pós-eleitorais.
“O objetivo principal é retirar o veneno das cobras e produzir soro antiofídico, uma substância produzida a partir do veneno das serpentes, para ajudar as pessoas quando são mordidas por cobras. Uma pessoa que, por exemplo, seja mordida na perna ou no braço, o hospital muitas vezes tem dificuldades em mantê-la viva, então o soro ajuda a estimular os anticorpos”, disse à Lusa Samuel Bila, responsável do serpentário.
A UEM reabriu o serpentário da Faculdade de Veterinária, na cidade de Maputo, após este ter sido vandalizado durante os protestos após as eleições de outubro de 2024, como centenas de outras instituições públicas e empresas, causando a fuga de variadas espécies de cobras.
A infraestrutura foi entretanto reabilitada com financiamento do Governo de Itália, através da Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS), no âmbito da implementação de projetos de investigação académica e formação orientados para a gestão sustentável do meio ambiente e a conservação da biodiversidade.
Assim, o serpentário conta agora com quatro exemplares pertencentes a três espécies de cobras, nomeadamente duas víboras, uma cobra-da-floresta e uma jiboia usada para aulas práticas com estudantes por não ser venenosa, totalizando quatro animais naquele espaço, quando a universidade pretende capturar mil serpentes para albergar num local agora com capacidade para pouco mais de 600 animais.
Conforme explicou o responsável, as cobras, quando capturadas nas zonas rurais, primeiro são colocadas na sala de quarentena para se familiarizarem com a nova realidade durante cerca de 40 dias, podendo receber no mesmo espaço tratamento para feridas, uma vez que muitas são agredidas pelas comunidades antes da captura.
Depois deste processo, são transferidas para a sala verde, o seu recinto definitivo, onde são cuidadas e alimentadas através de ratos criados pela universidade.
Samuel Bila explicou que o soro a ser produzido no serpentário vai ajudar a salvar vidas humanas e animais quando as unidades sanitárias enfrentam falta de medicamentos para tratar mordeduras de cobras.
“Ainda não começámos a produção de soro porque estamos na fase da captura de cobras. Estávamos na fase inicial, já tivemos uma fase antes, só que, como ainda não tínhamos muita habilidade no maneio das serpentes, algumas delas morreram. Então agora estamos nesta fase da organização, de captura”, disse à Lusa o responsável.
O serpentário ainda não tem fundos para a aquisição de reagentes que vão permitir chegar ao resultado final, estando agora a planear recolher o veneno e vendê-lo à vizinha África do Sul, que dispõe dos meios necessários para produzir o soro antiofídico.
O responsável admitiu que capturar cobras é uma atividade de risco que neste momento é feita apenas pelos docentes da Faculdade de Veterinária. A falta de soro para combater os efeitos das mordeduras impede a participação massiva dos estudantes no processo.
“Esse processo de venda de veneno ainda não estamos lá porque é um processo que vem a seguir. Ainda estamos aqui a tentar formar as pessoas no sentido de extrair o veneno, porque é outro processo. Extrair o veneno é diferente de capturar. Então a gente vai ter de ter o pessoal habilitado nessa área, que é para podermos fazer a extração, e aí liofilizar o veneno e mandar para a África do Sul, que é para eles poderem produzir o soro antiofídico”, explicou.
Bila pediu às comunidades para não matarem as cobras, apelando para que peçam ajuda às autoridades de modo a evitar a eliminação de espécies, e reiterou o pedido de apoios para apetrechar o serpentário.
“Quanto aos fundos, é difícil poder estimar neste momento, mas precisamos efetivamente de financiamento para isso, porque a fase principal neste momento seria a proteção dos próprios estudantes. Tínhamos de comprar o soro antiofídico na África do Sul, termos um ‘kit’ para pequenas emergências aqui, caso alguém seja mordido, para termos capacidade de resposta imediata”, disse.
O responsável adiantou que as unidades sanitárias não têm soros para tratar mordeduras de cobras, explicando que a iniciativa em curso visa ajudar o Ministério da Saúde com material hospitalar.
“Temos acordos com o Ministério da Saúde para ver como é que a gente vai reagir. Porque só um ‘kit’, um pequeno frasco de soro antiofídico, deve custar à volta de 5 mil rands com a instituição que a gente tem, que é a nossa parceira na África do Sul. Agora uma pessoa como eu, por exemplo, pode precisar de pelo menos cinco frascos para se salvar. Então, fazendo contas, estaria a falar em 25 mil rands [1.325 euros] só para mim”, explicou.
O serpentário quer também colaborar com o Ministério da Saúde de Moçambique para contabilizar os casos anuais de mordeduras de cobras e estimar as quantidades necessárias de soro por ano.
“É uma das razões para a existência deste serpentário, precisamente para salvar vidas e garantir uma solução nacional, em vez de termos de importar estes produtos da África do Sul”, concluiu Bila.
*** Pretilério Matsinhe (texto), Fernando Cumaio (vídeo) e Luísa Nhantumbo (fotos), da agência Lusa ***
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