
Lisboa, 15 jun 2020 (Lusa) – O Presidente da República, o primeiro-ministro e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa foram fortemente criticados pelos sem-abrigo que se manifestaram hoje em frente à Assembleia da República e que exigem apoios urgentes.
“Senhor Presidente da República, senhor primeiro-ministro, senhor presidente da Câmara [Municipal de Lisboa] venham aqui dar a cara. Não é só Natal e quando há eleições que precisamos das vossas palavras de conforto. Continuamos invisÃveis”, acusou António, um dos sem-abrigo que discursou perante as dezenas de manifestantes que se concentraram hoje frente ao edifÃcio do Parlamento em Lisboa.
“A rua não é uma escolha – Queremos casas” era uma das palavras de ordem escrita num enorme lençol atado à s grades de segurança da escadaria da Assembleia da República montadas pelos agentes da PSP presentes no local.
A concentração que decorreu de forma pacÃfica juntou pelo menos três dezenas de sem-abrigo e pessoas desfavorecidas, de todas as idades, da zona da Grande Lisboa: “da Avenida da Liberdade até à ‘Cova da Morte'”, numa referência ao bairro da Cova da Moura.Â
A manifestação “nasceu na rua” mas contou “inicialmente” com o auxÃlio do Seara – Grupo de Apoio Mútuo de Santa Bárbara, e foi convocada poucos dias depois do despejo de 13 pessoas carenciadas ou em situação de sem-abrigo e que viviam num antigo infantário, em Arroios (Lisboa) e que servia de “centro de apoio para pessoas carenciadas”.
“Quando sabem que somos sem abrigo pedem-nos seis ou oito meses de caução para um quarto. Não temos direito a nada e temos de correr muitas burocracias. Fartei-me de dar tempo de antena aos polÃticos. Eu não sou um número, sou uma pessoa”, disse Sara, uma das manifestantes que se queixa da falta de apoios do governo, dos autarcas e da Santa Casa da Misericórdia.
“Precisamos de um teto. Todos os meses as mulheres têm a menstruação e não há apoio para nada, nem sequer para médicos. As pessoas passam por nós e nós somos invisÃveis”, disse acrescentando que cada vez há mais pessoas a viver nas ruas de Lisboa.
“Cair na rua é muito fácil mas muitos querem sair da rua e há muitas casas fechadas e nós temos direito a um teto. A melhor solução é pegar nos sem-abrigo e ver as necessidades de cada um. Quem quer sair da rua anda anos em luta e não consegue nada”, queixa-se Sara frisando que “são muitas as casas vazias” na capital.Â
Sara vive na rua, não tem emprego e sente-se discriminada pela sociedade e pelas instituições.
“Eu sou um ser humano e agora com o ‘covid’ fecharam as instituições, andamos todos ao molhe e as únicas ajudas que temos é roupa. Dão-nos um rendimento mÃnimo que não dá para alugar um quarto. Os quartos custam 700 euros e nós recebemos 189 euros. Vivemos 20 pessoas num quarto e a alimentação não presta”, diz Sara indignada com a situação em que se encontram “milhares de pessoas”.Â
 Hoje, uma nota do gabinete do vereador da Educação e Direitos Sociais, Manuel Grilo, do Bloco de Esquerda (que tem um acordo de governação da cidade com o PS), refere que desde o inÃcio da pandemia já passaram pelos quatro centros de acolhimento de emergência para sem-abrigo criados pela autarquia mais de 500 pessoas.
Segundo o documento, 47 foram encaminhadas para o programa “Housing First”, um projeto financiado pela Câmara de Lisboa em que as pessoas são integradas em habitações tendencialmente individuais e têm um acompanhamento por técnicos que as orientam a gerir uma casa tendo em vista a sua integração social.
A autarquia, segundo a nota, prevê que até ao final do ano um total de 380 pessoas estejam alojadas através deste programa.
Para os sem-abrigo reunidos frente ao Parlamento hoje de manhã o vereador do Bloco de Esquerda “vive fora da realidade”.Â
“Não há até hoje, dia 15 de junho de 2020 nenhuma casa municipal atribuÃda a um sem-abrigo”, disse Guerreiro, um dos manifestantes que se mostra indignado com a autarquia.
“As pessoas só servem para votar de quatro em quatro anos, depois não encontramos nenhum vereador da Câmara Municipal de Lisboa a receber a população. Porquê? Questiona o sem-abrigo que transporta um cobertor à bandoleira, uma garrafa de álcool-gel numa mão e na mão esquerda a Constituição da República.Â
“Trago aqui a Constituição da República Portuguesa porque se alguém do Parlamento aqui vier eu quero relembrar aos ilustres deputados que existe o direito à habitação, mas o paÃs está a ser governado por uma esquerda burguesa que não quer resolver os graves problemas, começando pela habitação”, concluiu frisando que “não há falta de casas vazias em Portugal”.
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PSP (VAM) // SB
Lusa/fimÂ
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