Salvador Sobral edita novo álbum que tem na base “a música mais genuína do mundo”

Lisboa, 16 out 2026 (Lusa) — Salvador Sobral edita hoje “A Flor do Recomeço”, um álbum criado e gravado no Brasil, país que tem “a música mais genuína do mundo”, com autores, produtores e músicos brasileiros, mas cantado com a pronúncia ‘portuga’.

O músico, que ganhou projeção internacional ao dar a primeira vitória a Portugal no Festival Eurovisão da Canção, em 2017, dedica o novo trabalho à música que cresceu a ouvir e que considera “a mais genuína do mundo, a mais honesta e a mais rica”.

“A complexidade das canções não é óbvia à partida, porque parecem simples. Isso é também o que me interessa na música brasileira, a complexidade simples daquelas harmonias, dos ritmos, as letras, é tudo feito com um cuidado absoluto, as produções, os arranjos, desde sempre, é tudo feito com muito cuidado e ao detalhe, em todo o espetro de criação de música”, referiu, em entrevista à Lusa.

É por tudo isso que Salvador sente que “a música nasceu no Brasil”, mas também porque cresceu a ouvir Maria Bethânia no carro da mãe e Chico César no do pai.

Já mais velho, quando começou a ouvir música “de forma autónoma”, além de Stevie Wonder e Ray Charles, ouvia também muito Caetano Veloso.

Para um músico que já fez espetáculos apenas com canções de Jacques Brel, gravou um álbum no qual recria clássicos da música latino-americana e cantou Fernando Pessoa, fazer um álbum inteiramente dedicado ao Brasil poderia ser um projeto por concretizar, mas não.

“Este disco não estava muito presente na minha cabeça”, confidenciou, contando que “A Flor do Recomeço” partiu de um desafio do jornalista, curador e produtor brasileiro Marcus Preto, em 2023, quando Salvador Sobral foi atuar ao Brasil.

Marcus Preto disse-lhe, na altura, que teria de fazer um disco de música brasileira, mas de canções inéditas.

Entretanto a vida foi acontecendo e Salvador Sobral nunca mais se lembrou disso. Gravou um álbum com a espanhola Sílvia Pérez Cruz, apresentado numa digressão “muito intensa”, ao qual se seguiu um período de “zero imaginação, zero criatividade”.

“Com a situação no mundo, sentia que cantar era supérfluo, o meu ofício era supérfluo, e devia fazer alguma coisa pela Humanidade. Não tinha absolutamente criatividade nenhuma”, partilhou.

Nessa altura, incitado pela companheira, a atriz belga Jenna Thiam, contactou Marcus Preto e “A Flor do Recomeço” começou a ganhar forma.

A lista de autores brasileiros que contribuíram com canções para álbum começou com “toda a gente” que Salvador Sobral admira: “Chico Buarque, Djavan, Roberto Carlos, Caetano Veloso, sei lá, eu pus toda a gente, o sertanejo, o funk brasileiro. Gosto de tudo, então pus todos os compositores, a Bia Ferreira, o hip-hop, tudo”.

Com Marcus Preto, que sugeriu também uma série de nomes que o cantor não conhecia, foi decidindo o que fazia ou não sentido, até chegarem a uma lista final de autores a quem pediriam temas, que pouco a pouco foram recebendo.

“Temos várias gerações representadas, desde a época dourada da MPB [Música Popular Brasileira], como o Paulo César Pinheiro, a Joyce, o Chico César. Depois temos outra geração no meio, com a Adriana Calcanhotto, a Céu e o Arnaldo Antunes, e os jovens, a nova cena brasileira vibrante, como o Tim Bernardes e a Juliana Linhares”, disse.

A lista de autores inclui também Marcelo Camelo, Mallu Magalhães e Marcos Valle, entre outros.

Com os dois convidados do disco a lógica foi a mesma: “Queria ter a nova geração, com a Dora Morelenbaum [em ‘Estrela Cadente’], da nova cena brasileira, e a mais antiga, com o Ney Matogrosso [em ‘Bam Bam’], que tem 85 anos, embora não pareça. Queria ter representatividade de gerações, porque a época de ouro da música brasileira é toda”.

Além de contar com a participação de autores, intérpretes e produtores brasileiros, “A Flor do Recomeço” foi gravado com uma banda de músicos brasileiros: Tiago Costa (piano), Fábio Sá (contrabaixo), Conrado Goys (guitarra), Sergio Machado (bateria) e Felipe Roseno (percussão).

Apesar de tudo isso, Salvador Sobral canta as 11 canções que compõem o disco com a pronúncia de Portugal.

“Uma coisa de que tínhamos a certeza é que eu tinha de cantar com a minha pronúncia, porque é a única coisa que trago de diferente. Seria muito caricato um cantor português cantar com pronúncia do Brasil, até problemático do ponto de vista colonial e apropriação cultural”, justificou.

Essa decisão obrigou a pequenas alterações em algumas canções.

“Nós dizemos ‘curação’ e eles dizem ‘córáção’, e em ‘Bam Bam’, por desgraça, a palavra fica muito tempo no ‘cu’. Para nós era muito estranho, não podia cantar ‘cuuuuuuuuração’, então tive de encontrar um híbrido. Acabou por ficar ainda mais camuflado porque o Ney também canta na música”, contou.

O mesmo acabou por acontecer no refrão do tema que dá título ao álbum “A Flor do Recomeço”, porque ‘te beijei’ soava aos brasileiros como ‘te beijar’, algo que não fazia sentido.

O título da canção, a primeira a ser divulgada, serviu para batizar o novo álbum, por ser bonito, mas também por representar um recomeço na carreira de Salvador.

“A digressão com a Sílvia [Pérez Cruz] foi bastante cansativa e era uma coisa dos dois. Depois tive um ano sabático, para estar com a minha filha, e também fiz um filme no meio. Por isso considero um recomeço. ‘Vamos lá recomeçar a tourné, os discos’ e agora é uma coisa minha, em que tomo as decisões, em que o palco é só meu”, disse.

A nova digressão tem início este mês em Espanha, e inclui também datas na Noruega, Países Baixos, Lituânia, Reino Unido e Portugal, até maio do próximo ano.

Nestes espetáculos, o cantor estará acompanhado por uma banda composta por dois músicos portugueses, uma bielorrussa, uma catalã e um marroquino, porque seria “incomportável em termos financeiros” e “impossível em termos legais” trazer os músicos que gravaram o álbum para fazerem uma digressão que se prevê extensa.

A viver atualmente em Barcelona, Salvador Sobral mantém-se atento ao mundo, acompanhando “com muita preocupação”, por exemplo, as eleições presidenciais no Brasil, cuja segunda volta é disputada este mês pelo atual presidente, Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), e o senador Flávio Bolsonaro, do ultraconservador Partido Liberal (PL).

“Não consigo desligar estas coisas e ouço muitos programas de rádio, muitos ‘podcasts’ de política. Ouço todos os dias as notícias em Portugal e as da Catalunha, e estou genuinamente preocupado com a sociedade. Quando foi [da primeira volta] das eleições [presidenciais] no Brasil, mandei uma mensagem lá no grupo da música lá do Brasil e disse ‘sinto muito amigos, nem sei o que dizer’. E eles respondem: ‘o Brasil já era. Devíamos ter feito um disco de fados'”, partilhou.

Para o cantor, o disco de fados até faria sentido visto que Portugal vai no mesmo caminho do Brasil, “com este namoro entre o PSD e o Chega”.

No país onde agora vive, preocupa-o a convocatória de eleições legislativas antecipadas, marcadas para novembro. Na cidade onde nasceu e cresceu, Lisboa, cantor está “preocupado e irritado” com o presidente da Câmara Municipal.

“São coisas que me preocupam imenso. O [presidente dos Estados Unidos, Donald] Trump já é outra coisa, não é explicável uma raiva que se me provoca em mim. Detesto sentir raiva, mas sinto raiva por estas pessoas, que nem conheço pessoalmente”, partilhou.

Entre os vários temas que o preocupam estão “a crise da habitação e as medidas que não são tomadas” e “a crise climática” que o mundo atravessa, e, na Catalunha, por exemplo, “está a acontecer à frente dos olhos, com as tempestades, tormentas, trovoadas o tempo todo”.

Numa tentativa de ser um agente de mudança, em fevereiro deste ano, Salvador Sobral retirou todos os seus álbuns do Spotify – “a plataforma de ‘streaming’ que paga pior aos autores” e promove música criada por Inteligência Artificial (IA) – consciente de que a decisão poderia ser prejudicial para a sua carreira.

Em setembro, anunciou que iria voltar a disponibilizar a sua música naquela plataforma de ‘streaming’, “um Golias demasiado forte para enfrentar sozinho”, porque precisa de “chegar às pessoas” e “vender bilhetes” para concertos.

Salvador sentiu o regresso como “uma derrota pessoal”, mas com o ‘feedback’ que recebeu de várias pessoas, que com a sua atitude despertaram para “a problemática do Spotify e decidiram boicotar a plataforma, como utilizadores”, sentiu que “o esforço não foi em vão”.

“Isso deixou-me feliz e descansado, mas quero continuar a ser uma voz ativa contra o Spotify, a partir de dentro. Pode ser considerado hipócrita, mas sinto que era preciso um coletivo grande de artistas que se juntassem e dissessem: ‘vamos todos boicotar o Spotify em conjunto e criar um movimento grande'”, afirmou.

O facto de o ‘single’ “A Flor do Recomeço” ter sido o primeiro seu a não passar numa rádio em Portugal, desde que foi à Eurovisão, precipitou o regresso à plataforma.

“Ninguém conhecia a música. As pessoas queriam ouvir e eu quero que as pessoas ouçam a minha música, mas continuarei ativo e vocal contra o Spotify”, disse.

À semelhança dos álbuns “Excuse me” (2016), “Paris, Lisboa” (2019), “BPM” (2021), “Timbre” (2023), e do EP “Sal” (2022), todos editados em nome próprio, também “A Flor do Recomeço” estará disponível nas plataformas de ‘streaming’. O novo álbum terá também edição física.

*** Joana Ramos Simões (texto), José Sena Goulão (fotos) e Hugo Fragata (vídeo), da agência Lusa ***

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