
Newark, Estados Unidos da América, 27 out 2026 (Lusa) — Rusgas em pleno dia da polícia de imigração norte-americana passaram a ser uma realidade quotidiana da comunidade portuguesa do Estado de New Jersey, que vários portugueses descrevem à agência Lusa como chocante.
O método é sempre o mesmo: a diferentes horas do dia, carros descaracterizados surgem aos pares surgem na Ferry Street, na cidade de Newark, também conhecida como Portugal Avenue, param de repente e do interior surgem homens armados e mascarados que detêm sem perguntas pessoas que passavam na rua.
As histórias das rusgas do ICE multiplicam-se entre a comunidade e o medo está a espalhar-se, disse à Lusa Pedro Pires, que gere com a mãe uma loja de artigos desportivos.
Embora haja portugueses ilegais em Newark, ainda ninguém caiu nas malhas da polícia de imigração e fronteiras.
“No outro dia, tive que abrir a porta a uma senhora que me pediu para se esconder na loja porque se tinha esquecido do passaporte e o ICE apareceu”, contou.
Pessoas detidas à porta do hospital, um homem que fugiu para dentro de uma barbearia mas não conseguiu escapar aos agentes que o perseguiram e intervenções que parecem dirigidas a pessoas sul-americanas vão espalhando a reputação da polícia que a administração do Presidente Donald Trump fortaleceu na sua caça aos imigrantes ilegais.
“Foi a primeira vez que vimos isso aqui. Não estou satisfeito com o clima que deixaram. A rua ficou parada, muita gente não sai. Comércios que habitualmente estavam cheios de clientes não têm praticamente ninguém”, relatou o ourives Vítor Vinhas, que com a irmã dirige a Vinhas Jewelry, fundada em 1981 pelos seus pais.
“Isto não é bom, deviam parar. Quando a administração entrou, pensei que iam atrás de criminosos, mas agora não sei que regras seguem. Estamos a falar de imigrantes que trabalham dois ou três empregos para suportar as despesas e criar os filhos. De repente, o pai sai à rua e desaparece!”, criticou.
Manuel “Manny” Lopes, dono da Lopes & Sons Hardware, um ponto nevrálgico da comunidade de Ferry Street, questionou quem são os homens mascarados que lhe andam a prender os vizinhos e clientes.
“O que é que estes tipos faziam antes? Não estamos só a falar de 20 ou 30 em Newark. Eles andam pela América toda, são milhares…o que é que faziam antes? Trump não os foi buscar à tropa”, interrogou-se.
“Da maneira como prendem as pessoas, dá-me ideia que é gente que só tem valor porque tem uma pistola ao cinto”, condenou.
Para Joaquim “Jack” Costa, dirigente do Sport Club Português de Newark, era preciso “uma limpeza” depois de durante a administração Biden a fronteira do sul dos Estados Unidos ter estado praticamente aberta às entradas ilegais.
“As coisas tinham chegado a um ponto em que algo tinha que ser feito, porque entrou muita gente sem controlo. Só não sei se tinha que ser tão radical. Vivemos num país que é um alvo de radicais no mundo inteiro. Vivemos perto de Nova Iorque e às vezes vamos no comboio a pensar no que pode acontecer”, admitiu.
“O que me preocupa mesmo é que nem Trump, nem Bush, nem Obama cumpriram as promessas de resolver a situação de quem se quer legalizar”.
“Até 2001, se uma pessoa tinha um restaurante e precisava de um cozinheiro, tornava-se ‘sponsor’, patrocinador dessa pessoa, ela vinha, trabalhava, em dois anos ficava legal com o cartão verde, pagava impostos e trazia a família. Esse processo sempre funcionou. Depois, parou”, lamentou.
Para Jack Costa, que chegou aos Estados Unidos em 1990, com 14 anos, “o país precisa de imigrantes”.
“Quem disser que os imigrantes não fazem cá falta, esqueça”, resumiu.
Vítor Vinhas apoiou a ideia, frisando que vivendo entre a comunidade portuguesa estabelecida em Newark, imigrantes de países da América Latina como o Brasil ou Equador “fazem certos trabalhos que mais ninguém faz”.
“Na construção civil, quando é preciso assentar telhas quando estão 40 graus, são os estrangeiros. E fazem-no felizes e sem reclamar”, afirmou.
Refletindo sobre questão da imigração na campanha para as eleições de meio de mandato de 03 de novembro, Pedro Pires afirma que a atuação do ICE “não só leva as pessoas a ter uma ideia diferente da administração Trump mas também as pode levar a terem outra ideia sobre o Partido Republicano em geral”.
“Acho que isso é o pior, nós sabemos todos que ele não pode ficar mais um mandato, mas se havia alguém capaz de votar num republicano, pode mudar de ideias por causa do que está a acontecer com a imigração”, indicou, apontando que “Newark, por exemplo, é uma comunidade em que 65% das pessoas são imigrantes, pessoas que vieram do Brasil, Equador, Portugal”.
O Partido Democrata, que tem hipótese de ‘virar’ a Câmara dos Representantes e até o Senado, “estão mais parados e à espera do que vai acontecer”, avaliou.
O impacto da perseguição aos imigrantes sente-se particularmente entre os comerciantes, cuja maioria “vota republicano”.
“É normal, nós sabemos, mas isto está a mudar. Os democratas estão, como se diz, quietinhos à espera que isto mude”, afirmou.
*** António Pereira Neves (texto) e Tiago Petinga (fotos), enviados da agência Lusa ***
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