
Maputo, 23 out 2025 (Lusa) – Rosa Tembe assistiu em casa à violência que tomou a avenida Joaquim Chissano, centro de Maputo, após o anúncio dos primeiros resultados eleitorais há um ano, convivendo semanas com o gás lacrimogéneo, que até “desmaiou” os seus patos.
Em conversa com a Lusa, no mesmo sÃtio, a mulher, de 60 anos, vendedora de pasteis de feijão há 18 anos naquela avenida central da capital moçambicana, recorda o dia 24 de outubro de 2024. Enquanto a Comissão Nacional de Eleições (CNE) anunciava os primeiros resultados, provisórios, das eleições gerais de 09 de outubro, aquela avenida era tomada por pneus em chamas, barricadas, um helicóptero a sobrevoar e a polÃcia na rua a dispersar manifestantes com gás lacrimogéneo e tiro real, cenário que se prolongou por vários meses.
“Naquele dia que houve essa confusão aqui foi um dia triste. A mim encontrou-me quando eu estava moer ‘badjia’ [pasteis de feijão] aà e eu acabei de moer ‘badjia’ e saà para arrumar e pronto, [a polÃcia] levou gás lacrimogéneo e lançou onde estava, no quintal”, conta Rosa, na sua pequena banca, posicionada junto à via, daquela movimentada avenida.
Nesse dia, a CNE divulgou os resultados do apuramento geral das eleições de 09 de outubro — presidenciais, legislativas e para as assembleias provinciais -, anunciando a vitória da Frelimo, com mais 11 deputados do que os que já tinha no parlamento, e do seu candidato presidencial, Daniel Chapo, com 70,67% dos votos. Ao mesmo tempo, o fumo preto de pneus em chamas tomavam conta da avenida Joaquim Chissano, contestando o processo eleitoral, numa imagem que permanece na memória de muitos.
Com três netos a cargo, Rosa diz que teve receio pela própria vida e que valeu a ajuda dos vizinhos: “até os patos mesmo desmaiaram dentro da casa, agente não aguentava”.
Mesmo atingida, Rosa ainda se levantou para falar com um dos agentes policiais que tentavam dispersar os manifestantes, contestando os resultados eleitorais, apoiantes do candidato presidencial Venâncio Mondlane, que queimavam pneus e atiravam pedras ao longo daquela avenida, agitação que se repetiu no mesmo local ao longo de meses, propagando-se a outras zonas da capital. A mesma avenida tinha sido palco, em 18 de outubro, do violento duplo homicÃdio de Elvino Dias e Paulo Guambe, apoiantes de Venâncio Mondlane.
“Eu não terminei [o trabalho] e fui perguntar: mas treinou como? porque isto aqui [gás lacrimogéneo] não se lança numa casa, não se lança na cara da pessoa, porque isto aqui mata e cria doença dos pulmões. Aquele polÃcia, coitado, dia seguinte veio pedir desculpas”, explica.
Apesar de não ter parado completamente de preparar as suas ‘badjias’ “saborosas”, que serve “até médicos”, durante os tumultos naquela avenida, a comerciante conta que teve que reinventar-se, distribuindo seu produto em hospitais “para conseguir dinheiro de pão de casa e para as crianças”, apesar de ganhar menos.
Não muito longe da banca de Rosa, a pequena loja de conveniência de José Manave, 45 anos, comerciante há sete anos na avenida Vladimir Lenine, junto à avenida Joaquim Chissano e outra artéria principal que também foi centro dos tumultos durante as manifestações, somou prejuÃzos de 280 mil meticais (três mil euros).
“Antes das manifestações o negócio estava a andar muito bem, mas no ato ou após manifestações houve muita procura, mas a oferta era muito menor”, diz à Lusa o comerciante, que se viu obrigado a fechar a loja, que funciona no seu quintal, durante os protestos.
José nada pôde fazer para impedir os roubos e vandalizações que sofreu nesse perÃodo, que reduziram o seu capital em cerca de 80% e agora tenta reerguer-se através de financiamentos bancários: “Trabalhamos com os bancos. Você vai ao banco, leva um certo valor e mensalmente, tem que devolver o valor e há casos em que você não tem movimento, mas tem que pagar o banco”.
LuÃs Jalão, 46 anos, vende calçado na mesma zona, desde 2015. Conseguia vender pelo menos três pares de sapatos antes dos protestos, faturando 3.000 meticais (40 euros) diários, cenário que mudou muito atualmente: “agora nem para um par, é problema. É normal sair de casa e ficar aqui mesmo, nem um par”.
“Agora parou tudo. Não há dinheiro”, lamenta, sentado de baixo de uma sombra improvisada em frente à dezenas de calçados para todas idades e gostos, organizados numa das calçadas daquela avenida.
Apesar dos violentos tumultos e protestos, LuÃs abriu a sua banca “do princÃpio ao fim das manifestações”, já que dependia disso para sustentar-se, pagando a renda de casa e a alimentação.
Com o sonho de terminar a construção da sua casa na sua terra natal, na provÃncia da Zambézia, o comerciante aguentou roubos e agressões durante as manifestações, na esperança de ter financiamento.
“Fui [agredido] cinco vezes, até tenho uma notificação aqui no bolso. Cheguei à polÃcia, meti queixa, ainda estou atrás das pessoas que conseguiram me roubar”, lamenta, pedindo que se mantenha a estabilidade e que a violência não volte a acontecer.
No meio do frenesim da mesma avenida vive Alda Chitsele, 58 anos, que ali vende lanches e bebidas há pelo menos 25 anos, um negócio que permitiu-lhe pagar os estudos dos três filhos e construir uma casa, mas que agora está em risco de falência, pela falta de clientes.
“O negócio está indo à falência de verdade. Porque você só sofre, não produz”, admite Alda, contando que antes das manifestações e da crise que se seguiu voltava para casa com até 5.000 meticais (67 euros) num só dia.
“Até para alimentar-se em casa é muito difÃcil (…), à s vezes dormimos sem comer”, queixa-se, sentada de frente à movimentada paragem de transportes que levam pessoas e bens do centro da cidade ao Xiquelene, mercado da Praça dos Combatentes, arredores de Maputo.
Como tantos outros, trabalhou todos os dias durante as “confusões” que começaram ali há um ano: “só que, à s vezes, naquele momento de lançamento de coisas, aà eu fugia”.
“Nas próximas eleições, eu quero que aconteça a verdade. (…) os votos serem contados do jeito normal e da maneira que é necessário. Porque os golpes também não servem nada porque o paÃs está a afundar-se através dessas coisas que não se entendem e estamos a perder a mais”, pede Alda.
O Conselho Constitucional proclamou em 23 de dezembro, dois meses e meio após a votação, Daniel Chapo como vencedor da eleição presidencial, com 65,17% dos votos nas eleições gerais de 09 de outubro, seguindo-se Venâncio Mondlane, com 24%, mas que nunca reconheceu os resultados.
A plataforma eleitoral Decide, organização da sociedade civil que monitoriza os processos eleitorais avançou em abril que pelo menos 388 pessoas foram mortas e mais de 800 baleadas em cerca de cinco meses de protestos pós-eleitorais, 90% dos quais “foram causados por disparos com recurso a balas reais”.
Daniel Chapo e Venâncio Mondlane reuniram-se em Maputo, pela primeira vez desde as eleições, em 23 de março, e no dia seguinte o ex-candidato presidencial apelou ao cessar da violência, não se tendo registado casos de agitação social associados à contestação eleitoral desde então.
*** Lina Cebola (texto), Fernando Cumaio (vÃdeo) e LuÃsa Nhantumbo (foto), da agência Lusa ***
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