
Pequim, 25 jan 2025 (Lusa) — O risco de deflação na economia chinesa agravou-se, suscitado por uma profunda crise imobiliária, que afetou o investimento e o consumo, numa altura em que o paÃs se prepara para entrar no novo ano lunar.
O Ãndice de preços no consumidor (IPC), principal indicador da inflação, continuou a desacelerar em dezembro para 0,1% e a subida acumulada de preços em 2024 foi de apenas 0,2%, agravando as pressões deflacionistas na segunda maior economia do mundo.
A deflação consiste numa queda dos preços ao longo do tempo, por oposição a uma subida (inflação). O fenómeno reflete debilidade no consumo doméstico e investimento e é particularmente perigoso, já que uma queda no preço dos ativos, por norma contraÃdos com recurso a crédito, gera um desequilÃbrio entre o valor dos empréstimos e as garantias bancárias.
Outro dos efeitos é o de levar ao adiamento das decisões de consumo e investimento em resultado de expectativas de preços mais baixos no futuro, podendo criar uma espiral descendente de preços e procura difÃcil de inverter, afetando a economia por inteiro.
A queda dos preços começou em 2022, com a desvalorização do ativo mais importante na China: o imobiliário residencial. Desde que Pequim liberalizou o setor na década de 1990, os imóveis passaram a constituir o principal veÃculo de investimento das famÃlias chinesas, levando a um ‘boom’ na construção, que transformou as cidades do paÃs asiático.
Essa estratégia económica parece agora ter ido longe demais.
Uma viagem de comboio pela China permite vislumbrar milhares de torres vazias ou inacabadas. Diferentes analistas calculam existir atualmente no paÃs propriedades vazias suficientes para abrigar mais de 90 milhões de pessoas — cerca de nove vezes a população portuguesa.
“Houve muito crescimento fictÃcio na China”, observou Michael Pettis, professor de teoria financeira na Faculdade de Gestão Guanghua, da Universidade de Pequim, à agência Lusa.
“O excesso de investimento em todo o tipo de projetos de construção não produtivos inflacionou o crescimento durante vários anos”, descreveu.
Agora, a perspetiva de uma queda prolongada nos preços dos imóveis levou à perda de confiança dos consumidores e investidores e a fuga para alternativas mais seguras.
Produtos com capital garantido, como os depósitos a prazo, tornaram-se a escolha preferida dos aforradores, o que levou o banco central da China a reduzir as taxas de juro, visando incentivar a alocação de capital na economia.
Os depósitos a prazo nos bancos estatais pagam atualmente 1,6% ao ano, em comparação com mais de 4%, há cinco anos.
Com poucos ativos seguros disponÃveis, os bancos, as seguradoras e os gestores de fundos têm acumulado tÃtulos de dÃvida pública, diminuindo a sua rentabilidade. As obrigações do Estado chinês a dez anos rendem agora cerca de 1,6%.
“Um dos fatores é a expectativa entre os investidores de que serão decididos cortes nas taxas diretoras [definidas pelo banco central], dado que os últimos dados sobre a atividade económica permanecem fracos e as medidas polÃticas anunciadas até agora parecem não ter conseguido impulsionar as expectativas de crescimento”, escreveu James Reilly, analista da Capital Economics, num relatório difundido na semana passada.
“Isto ajuda a explicar porque é que os rendimentos de curto prazo também caÃram, com o rendimento [das obrigações] a dois anos a descer para 1%”, apontou.
Finalmente, quanto ao imobiliário, situação é particularmente agravada pela circunstância da população chinesa ter entrado num acelerado processo de declÃnio.
A população encolheu em 2024 pelo terceiro ano consecutivo e estimativas da ONU preveem que caia para menos de metade do número atual até 2100.
“As mulheres estão mais conscientes”, explicou Zhao Hua, uma chinesa de 28 anos natural de Pequim, à Lusa. “A desigualdade de género continua a ser profunda na China: os homens querem uma famÃlia tradicional, na qual a mulher toma conta dos filhos e das tarefas domésticas”, acrescentou.
Várias jovens mulheres chinesas ouvidas pela Lusa sublinharam a discrepância entre esse tipo de mentalidade com as expectativas de uma sociedade que se modernizou e urbanizou a um ritmo sem paralelo na História moderna.
Segundo o Banco Mundial, em 1980, apenas 19,4% da população chinesa vivia em zonas urbanas. Em 2023, a taxa ascendeu a cerca de 66%.
Recorrer à imigração para contrariar a queda populacional e estimular o imobiliário residencial parece estar excluÃdo: a China define-se como sendo um paÃs de “não-imigração”. Pequim não reconhece a dupla nacionalidade. A atribuição de cidadania é baseada no princÃpio “jus sanguinis” (direito de sangue), podendo apenas ser atribuÃda a quem tem ascendência chinesa.
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