
Redação, 25 set 2026 (Lusa) – O documentário “NAZA”, de Yuval Abraham e Rachel Szor, sobre a atuação do exército israelita em Gaza, vai ficar disponível gratuitamente ‘online’ a partir de novembro, com os realizadores a garantir que não se intimidam com as ameaças recebidas.
A decisão foi tomada pelos dois realizadores israelitas em conjunto com o jornal britânico The Guardian, coprodutor do documentário, “devido ao interesse e importância pública do filme”, explicou Yuval Abraham numa publicação na rede social X.
“Eu e a Rachel decidimos, juntamente com o The Guardian, que o filme ‘NAZA’ ficaria acessível ‘online’ gratuitamente, sem qualquer limite de tempo, para que todas as pessoas possam vê-lo e ouvir os testemunhos dos soldados”, escreveu.
Segundo o jornalista e realizador israelita, o filme deverá ficar disponível em novembro, “na data mais próxima” que foi possível estabelecer.
Até lá, Yuval Abraham e Rachel Szor ofereceram “NAZA” gratuitamente a salas de cinema israelitas, na esperança de que seja exibido no país em simultâneo com a distribuição internacional.
Distinguido com o Prémio Especial do Júri no Festival de Cinema de Veneza, onde recebeu uma ovação de pé recorde, que durou cerca de 25 minutos, “NAZA” reúne depoimentos de 24 militares e agentes dos serviços de informações israelitas sobre as operações militares na Faixa de Gaza, e resulta de três anos de investigação jornalística, revela Yuval Abraham.
Na publicação, o realizador reage também à polémica desencadeada em Israel pelo filme e às acusações dirigidas aos seus autores, defendendo que “muitas coisas incorretas” foram ditas sobre ambos e sobre o documentário na última semana.
Yuval Abraham sublinha que o documentário se baseia numa investigação jornalística abrangente, em que todos os pormenores foram verificados e cruzados, considerando que o filme “falará por si próprio” e que “a verdade acabará por vir ao de cima”.
“Fizemos o filme para suscitar uma discussão pública sobre as ações do Governo em Gaza, a morte de mais de 73.000 pessoas, a maioria civis, a normalização de uma guerra de extermínio e da ideia de que não há [pessoas] não envolvidas”, acrescentou.
“Vinte e quatro soldados, homens e mulheres, deram um passo em frente e falaram diante de uma câmara sobre aquilo de que toda uma sociedade não quer falar”, escreveu.
O realizador salientou que o reconhecimento das “atrocidades em Gaza” não diminui “nem por um momento” a gravidade do ataque do Hamas de 07 de outubro de 2023, que classificou como um “massacre hediondo” sem qualquer justificação, “pelo contrário, afinal, ignorar o que está a acontecer em Gaza é um dos fatores que abriram caminho para aquele sábado horrível”.
“O jornalismo não é traição. A crítica não é traição”, afirmou Yuval Abraham, depois de os realizadores terem sido acusados de traição em Israel, na sequência da apresentação e premiação do filme em Veneza.
O ministro israelita da Cultura, Miki Zohar, classificou “NAZA” como um filme “vil” e anunciou que procuraria retirar a cidadania israelita aos realizadores, enquanto o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, também criticou publicamente o documentário.
Na publicação, Yuval Abraham dirige-se ainda aos militares israelitas que tenham presenciado acontecimentos semelhantes aos descritos pelos entrevistados no filme, defendendo que têm o dever de testemunhar.
Abraham deixa ainda um alerta a esses militares: “Dir-vos-ão que é melhor esconder a verdade por causa da ‘hasbara’ [diplomacia pública israelita] no estrangeiro, mas isso é um disparate. Lá fora, já sabem tudo. Os crimes não se explicam, impedem-se”.
Yuval Abraham reconheceu que a polémica teve “um enorme preço pessoal” e que a última semana foi “difícil”, mas garantiu que as ameaças não irão impedir o trabalho dos dois realizadores.
“Uma coisa é certa: as ameaças não vão resultar. Não nos intimidam. Rachel e eu regressaremos ao país e continuaremos a lutar pelo futuro deste lugar, juntamente com muitos parceiros”, assegurou.
“NAZA”, que se estreia em Portugal em 01 de outubro, foi realizado por Yuval Abraham e Rachel Szor, dois dos quatro autores de “No Other Land”, vencedor do Óscar de melhor documentário em 2025.
Filmado clandestinamente à noite nos telhados de Telavive, o documentário, com 80 minutos de duração e falado em inglês e hebraico, reúne testemunhos de militares e agentes dos serviços de informações israelitas sobre os mecanismos de seleção de alvos e os limites de vítimas civis considerados aceitáveis em ataques na Faixa de Gaza.
A onda de mensagens de ódio e de ameaças que têm visado os dois realizadores e as suas famílias levou a que mais de mil cineastas israelitas e 43 organizações israelitas de direitos humanos manifestassem o seu apoio aos autores do documentário.
Numa declaração conjunta, as organizações humanitárias apelaram às autoridades israelitas para que cessem a incitação e as ameaças contra Yuval Abraham e Rachel Shor, assim como para que se abstenham de perseguir os cineastas ou as suas fontes, oficiais dos serviços secretos militares israelitas que deram testemunhos sob anonimato.
As ONG exigiram igualmente uma investigação israelita “séria” sobre o elevado número de vítimas em Gaza, incluindo civis, e o acesso livre para jornalistas a Gaza (onde Israel não lhes permite a entrada desde outubro de 2023).
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