Ramaphosa apela ao fim da estigmatização dos imigrantes na África do Sul

Joanesburgo, 16 jun 2026 (Lusa) – O Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, apelou hoje aos sul-africanos para não fazerem dos imigrantes os bodes expiatórios dos seus problemas, referindo-se, nomeadamente, ao desemprego em massa e à criminalidade galopante que o país vive.

A África do Sul, país vizinho de Moçambique, tem vindo a enfrentar, há vários meses, manifestações em todo o país exigindo a saída de imigrantes clandestinos.

Apesar das manifestações nunca terem ultrapassado alguns milhares de pessoas, o certo é que as mesmas vieram acompanhadas de um sentimento de ódio xenófobo online e tiveram grande repercussão mediática.

“Alguns imputam os problemas do Governo atual, o desemprego, a criminalidade e a mediocridade dos serviços públicos aos cidadãos estrangeiros”, salientou o Presidente da África do Sul num discurso por ocasião do Dia da Juventude, que assinala o levantamento do Soweto em 16 de junho de 1976.

“Se assumimos o desafio que representa a imigração ilegal […], e mesmo enquanto tomamos medidas decisivas para enfrentá-lo, os nossos problemas são, essencialmente, os nossos próprios problemas, e temos a responsabilidade de os resolver nós mesmos”, declarou.

A taxa de desemprego juvenil atinge os 42%, em comparação com os 32% para toda a população ativa, lembrou o chefe de Estado, detalhando diante de um público jovem as medidas tomadas pelo seu Governo para criar empregos e apelando ao setor privado para oferecer aos jovens sem experiência profissional o seu primeiro emprego.

“Para enfrentar estes desafios, são necessárias soluções concretas, e não transformar as pessoas vulneráveis em bodes expiatórios”, acrescentou Ramaphosa.

No final da cerimónia, o chefe de Estado lançou um aviso “àqueles que fazem muito barulho sobre estas manifestações” e afirmou: “Parece que há realmente uma intenção de desestabilizar o país, e a mensagem é clara: ‘não vamos permitir'”.

A 07 de junho, Ramaphosa disse reconhecer as preocupações em relação à imigração ilegal, mas avisou que as autoridades não tolerariam que alguém fizesse justiça pelas próprias mãos.

O Governo esclareceu que a maioria das pessoas repatriadas encontrava-se ilegalmente no país.

Entre os imigrantes ilegais, a África do Sul conta cerca de 7.000 malauianos a viver num terreno baldio na cidade portuária de Durban (leste), segundo o comité interministerial sobre migrações recentemente criado.

A África do Sul é uma das economias mais ricas do continente e atrai há muito tempo, de forma legal e ilegal, trabalhadores migrantes de toda a região.

Muito preocupados com o atual ambiente social e temendo pela sua segurança, muitos desses imigrantes decidiram agora regressar aos seus países.

A África do Sul repatriou 2.745 estrangeiros, incluindo centenas de moçambicanos, na semana a seguir à promessa do Presidente Cyril Ramaphosa de endurecer a luta contra a imigração ilegal, anunciou no domingo o ministro do Interior do país, Leon Schreiber.

O país tem sido alvo de manifestações xenófobas nos últimos meses e os recentes saques em lojas e ataques contra estrangeiros levaram cidadãos de Moçambique, da Nigéria, do Maláui, do Gana e do Zimbabué a aceitar um repatriamento voluntário organizado pelos seus governos.

Nas últimas semanas, o Gana e a Nigéria repatriaram várias centenas dos seus cidadãos e, no domingo, foram repatriados também para o seu país dezenas de malauianos em oito autocarros.

Em Moçambique, estima-se que mais de 700 moçambicanos tenham regressado a casa como consequência da “onda de xenofobia”, que já causou a morte a nove moçambicanos.

As autoridades locais indicaram hoje que mais repatriamentos estão previstos nos próximos dias.

Mais de três milhões de estrangeiros vivem na África do Sul, ou seja, 5,1% da população, segundo a agência nacional de estatísticas e o último recenseamento realizado em 2022.

MAV (ANP) // MLL

Lusa/Fim