
São Tomé, 27 mar 2023 (Lusa) — Cerca de 80% dos jovens são-tomenses querem abandonar o paÃs em busca de melhores condições de vida, nomeadamente emprego e saúde, e muitos perderam esperança no desenvolvimento do arquipélago, indica um estudo do Conselho Nacional da Juventude são-tomense.
“O estudo provou que 78% dos jovens querem migrar. Quando nós vemos uma percentagem desse nÃvel, de jovens que pensam sair do paÃs, enquanto plataforma da juventude, isso preocupa-nos e preocupa-nos imensamente”, disse à Lusa o secretário-geral do Conselho Nacional da Juventude (CNJ) de São Tomé e PrÃncipe, Laudino Tavares.
Segundo o responsável, os inquiridos apontaram como motivos de querer emigrar a necessidade de encontrar melhores condições de vida, questões ligadas à saúde, e outros “vão aventurar-se por falta de oportunidade de emprego” em São Tomé e PrÃncipe.
“Um jovem que eu inquiria na altura disse-me que ele prefere ir para viver de baixo da ponte. Ficar em São Tomé é que ele não fica. […] No fundo os jovens estão dispostos a sair do paÃs, não importa para ir fazer o quê lá fora. O importante é sair”, relatou o lÃder juvenil são-tomense.
O estudo foi realizado em julho do ano passado, com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), quando São Tomé e PrÃncipe se preparava para as eleições legislativas, autárquicas e regional realizadas em 25 de novembro. Segundo Laudino Tavares, o documento não teve acolhimento dos partidos concorrentes à s legislativas, nem do Governo de então liderado pelo ex-primeiro-ministro Jorge Bom Jesus.
“Fizemos questão de enviar o resultado do inquérito para todos os partidos polÃticos, depositámos nas sedes dos partidos polÃticos para colocarem estas preocupações nos seus manifestos eleitorais e isso infelizmente não aconteceu”, lamentou.
Após as eleições, o Governo são-tomense que passou a ser liderado pelo primeiro-ministro Patrice Trovoada, lÃder da Ação Democrática Independente (ADI), que venceu as legislativas com maioria absoluta de 30 deputados.
O secretário-geral do CNJ considera que, apesar da alternância, a imigração juvenil não parou de crescer e “tem sido o ‘calcanhar de Aquiles’ nos últimos meses”.
“Indubitavelmente isso tende a agravar-se, porque eu converso com os jovens diariamente e o que eu percebo é que ninguém quer ficar no paÃs. Quando se pergunta sobre as causas de emigração, já conhecemos, então é necessário criar condições para que os jovens não sintam essa necessidade de emigrar”, sublinhou Laudino Tavares.
“Muita gente acredita que não há sinal de criação de condições para que os jovens fiquem no paÃs”, acrescentou.
O estudo realizado pela maior plataforma da juventude são-tomense concluiu também que “a não participação juvenil nas votações eleitorais tem como principais causas a corrupção polÃtica e ausência do cartão de eleitor”.
Ainda assim, o secretário-geral do CNJ sublinhou que os dados do inquérito provaram que muitos jovens votam e votaram, sobretudo nas eleições presidenciais de 2021.
“Costumávamos pensar que a taxa de abstenção em São Tomé e PrÃncipe era um problema que vivia no seio da juventude, mas o inquérito que nós fizemos prova o contrário. De acordo com os resultados do inquérito, os jovens são-tomenses participam sim nas eleições, porque nós concluÃmos que em cada 10 jovens, oito participaram na eleição presidencial de 2021”. Precisou Laudino Tavares.
Contudo, concluiu-se que “os jovens classificam a polÃtica em São Tomé e PrÃncipe como péssima” e “dizem que há muita corrupção”.
“Ao nÃvel dos resultados do inquérito, os jovens não têm esperança quanto ao desenvolvimento do paÃs. Isso é preocupante, é necessário que os lÃderes, que os governos comecem a pensar seriamente nisso para tentar devolver essa esperança à juventude, porque principalmente a juventude sem esperança é uma juventude morta e que está à deriva e disposta a ir para onde o vento a atirar”, referiu o secretário-geral do CNJ.
O estudo do CNJ foi entregue à nova ministra da Juventude e Desporto, EurÃdice Medeiros, e tem sido analisado a nÃvel do Governo.
Durante a campanha de auscultação da população para a preparação do Orçamento Geral do Estado, o primeiro-ministro, Patrice Trovoada, admitiu a preocupação do executivo perante a vaga de emigração jovem.
“Se a maioria da população é jovem e se 78% dessa maioria quer abandonar o paÃs então o paÃs também não tem futuro. […] Nós não podemos impedir os jovens de sair, mas nós temos consciência de que se nós não fizermos alguma coisa para o jovem encontrar o seu futuro aqui, amanhã quando vamos precisar de um jovem para trabalhar, não teremos jovens para trabalhar”, disse Patrice Trovoada durante a conversa com populares no distrito de Cantagalo.
O chefe do Governo são-tomense prometeu a realização de um inquérito para ouvir as ideias dos jovens a fim de “definir uma polÃtica que possa resolver o problema”.
Na sexta-feira, o ministro da Saúde são-tomense, Celsio Junqueira, disse à Lusa que o sistema de saúde de São Tomé e PrÃncipe está com carência de profissionais devido ao aumento da emigração de quadros para Portugal desde a facilitação de visto no âmbito do acordo de mobilidade da Comunidade dos PaÃses de LÃngua Portuguesa (CPLP).
“Desde que Portugal tornou fácil o acesso à entrada, muitos profissionais de saúde têm saÃdo, então alguns serviços começaram a estar em causa, deixaram de ter o mÃnimo que é necessário para trabalhar e garantir qualidade de serviço”, disse à Lusa Celsio Junqueira.
Face à “vaga de emigração”, o ministro da Saúde, Trabalho e Assuntos Sociais foi autorizado pelo Governo a proceder à contratação de profissionais reformados para compensar a saÃda de quadros.
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