
Lisboa, 24 jun 2022 (Lusa) – A professora de relações internacionais da Universidade do Rio de Janeiro Miriam Gomes defendeu hoje que as próximas eleições no Brasil vão marcar o modelo futuro de inserção internacional do paÃs, incluindo nas relações do paÃs com Portugal.
Hoje, na opinião da investigadora, tudo é uma incógnita sobre qual vai ser a polÃtica externa do paÃs. “Depende do candidato que vencer” as próximas eleições, LuÃs Inácio Lula da Silva, antigo Presidente, ou Jair Bolsonaro, atual chefe de Estado do Brasil, com posições diferentes no que respeita à s relações com o exterior.
“Atualmente, após dez anos de crises económicas e polÃticas de diferentes tipos, o paÃs está frente a uma eleição presidencial polarizada, e que vai marcar o modelo futuro da inserção internacional”, afirmou a investigadora, que falava na “Conferência Brasil Portugal: Perspetivas de Futuro”, que começou na quinta-feira e termina hoje na Fundação Calouste Gulbenkian, entidade organizadora do evento.
Esta iniciativa surge no âmbito das comemorações do bicentenário da independência do Brasil, que se celebra este ano.
Para a académica, que falou sobre o tema “Brasil no bicentena´rio: Inserc¸a~o Externa e Perspetivas de Futuro”, as vitórias de Bolsonaro ou do ex-Presidente Lula da Silva “vão levar o paÃs nas suas polÃticas, tanto interna quanto externa, por caminhos diferentes”.
“Internamente, Bolsonaro aponta para a continuidade”. Já Lula da Silva deverá fazer uma frente com atores mais variados e deverá levar a cabo uma “reconstrução do paÃs”, dedendeu.
Na polÃtica externa, segundo Miriam Gomes, Bolsonaro também aponta para a continuidade das relações até agora seguidas, que na sua perspetiva comprometeram a imagem do Brasil porque o atual Presidente brasileiro “optou por fazer alianças com lÃderes dos governos e não com os Estados”.
Assim, “a aproximação ou o afastamento do Brasil de outros paÃses passou a ter como critério os governos de turno”, salientou, o que favoreceu “a paralisia da polÃtica externa” brasileira.
Neste contexto, as relações com os paÃses europeus “deterioraram-se”, considerou
Quanto ao candidato Lula da Silva, Miriam Gomes considerou que quando este foi Presidente do Brasil “implementou uma polÃtica externa que propôs uma revisão nas instituições multilaterais, fortaleceu a cooperação sul-sul, assim como as parcerias com os demais paÃses emergentes”.
Assim, com ele, as tradições do Itamaraty, “como a defesa do multilateralismo devem ser recuperadas”, defendeu.
Para o bloco europeu e Portugal, a investigadora realçou que “a polÃtica de Bolsonaro foi refratária aos valores de uma UE normativa e ao inter-regionalismo”, enquanto o Governo Lula assinou a parceria estratégica Brasil-UE, recordou.
Por isso, a investigadora considerou que se Lula da Silva a vencer as eleições “certamente o Brasil voltará à CELAC [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos]”.
Já sobre o desenrolar do acordo UE-Mercosul, já assinado, mas ainda não ratificado, depois de vários anos de negociações, considera que há “um ponto de interrogação”.
Com Bolsonaro, aquele acordo “está travado” e “com Lula as negociações para a assinatura do acordo foram paralisadas”.
Porém, “uma aproximação entre Lula e Alberto Fernández [Presidente da Argentina] pode romper o equilÃbrio de ofertas que possibilitou a assinatura do acordo”, considerou a académica brasileira.
Em relação a Portugal, Miriam Gomes disse que os “Estados podem criar incentivo para a interação”.
Com Lula da Silva pode haver maior cooperação no espaço atlântico e a Comunidade dos PaÃses de LÃngua Portuguesa (CPLP) pode ser um caminho a seguir, sobretudo com iniciativas triangulares, frisou.
A conferência, que termina hoje em Lisboa, tem por objetivo debater o futuro das relações entre Portugal e o Brasil.
Os antigos Presidentes portugueses Cavaco Silva e Ramalho Eanes, bem como o antigo chefe de Estado do Brasil Michel Temer e o ministro dos Negócios Estrangeiros português, João Gomes Cravinho, foram alguns dos oradores na quinta-feira.
O encerramento da conferência conta com a intervenção do Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa.
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