
Luanda, 12 jan 2022 (Lusa) — O governo da provÃncia angolana do Cunene considerou hoje “incomuns” as cheias que se registam na região, admitindo um aumento das chuvas e “situações piores” nos próximos dois meses, mas assinalou que o fenómeno também traz “benefÃcios” à s populações rurais.
“Realmente a provÃncia está a ser beneficiada com chuvas abundantes e na montante no norte e leste da provÃncia, aà está a chover muito e fez com que a água das cheias partisse do municÃpio do Cuvelai e transbordasse do norte para o sul e fez com que as cheias atingissem a cidade de Ondjiva, capital da provÃncia”, afirmou hoje o vice-governador da provÃncia Apolo Ndinoulenga.
Em declarações à Lusa, o governante reconheceu que as intensas chuvas na região, no mês de janeiro, “não são um fenómeno comum, porque as chuvas mais abundantes, normalmente, têm sido nos meses de fevereiro e Março”.
“Neste contexto, as chanas [planÃcies] estão cheias, são mesmo cheias pouco comuns, e estamos agora a acautelar-nos para os próximos dois meses onde se têm registado mais precipitações a nÃvel da época de chuva”, disse.
“Se agora as cheias estão nessas proporções pensamos que com o aumento das chuvas nestes dois meses poderemos ter situações piores, mas, pessoalmente, penso que não podemos olhar para as cheias numa perspetiva negativa”, realçou.
O responsável apontou que “as cheias beneficiam mais do que prejudicam, isso é conhecido tradicionalmente”.
Para o vice-governador do Cunene para o setor PolÃtico, Social e Económico, as autoridades locais não estão a ver agora prejuÃzos enormes, admitindo, no entanto, que muitas escolas da provÃncia estão “encerradas e sitiadas” em consequência das cheias.
A provÃncia do Cunene, região sul de Angola, que tem sido afetada nos últimos anos com a seca, registou nos últimos dias fortes chuvas, que concorreram para a inundação das chanas e de vários pontos da circunscrição, inclusive a sua capital, Ondijva.
Apolo Ndinoulenga explicou também que a cidade de Ondjiva está localizada por cima da bacia hidrográfica do rio Cuvelai, cujo lençol freático por vezes “vem à superfÃcie, causando muitas vezes as cheias”.
“Há casos em que algumas casas ficam inundadas por água que está a sair do solo para cima, é esta componente negativa que podemos citar, e este assunto de Ondjiva já tem merecido uma atenção especial do nosso executivo”, realçou.
Segundo o governante, a capital do Cunene hoje não é afetada tanto pelas águas correntes pela superfÃcie terrestre, “mas sobretudo devido ao lençol de água aà existente, porque foram construÃdos diques de proteção da cidade que desviam a água”.
“O único problema acontece com o lençol freático que fica sempre saturado e tira a água para a superfÃcie, isto provoca à s vezes inundações nos quintais, nas casas, e então este é que é o aspeto negativo”, admitiu.
Uma organização não-governamental angolana criticou hoje o que disse ser “trabalho paliativo” das autoridades em resposta à s cheias que se registam na provÃncia do Cunene, devido à s chuvas, lamentando que muitas crianças estejam impedidas de assistir aulas.
“É verdade que neste momento está a se verificar cheias e que as mesmas têm muitas implicações, uma delas são as aulas, porque quando as chanas estão cheias as crianças deixam de ir à escola porque não podem atravessar as chanas, disse hoje à Lusa o padre angolano Gaudêncio Félix Yakuleinge.
Além disso “também quando cai a chuva as aulas são impossÃveis, porque muitas crianças estudam debaixo de árvores”, frisou o também responsável da Associação Ame Naame Omunu, ONG local de promoção dos direitos humanos.
O vice-governador do Cunene assegurou igualmente que as autoridades locais estão a envidar esforços no sentido de responder às consequências das chuvas, referindo que as medidas paliativas, como valas de drenagem para evacuar as águas, serão complementadas posteriormente com um projeto integrado.
O governo da provÃncia tem em carteira um projeto designado “Projeto de Infraestruturas Integradas da Cidade de Ondjiva” aguarda pela aprovação central.
Salientou que, tão logo o referido projeto estiver aprovado, será possÃvel responder ao problema na capital.
“E desejamos sempre boas vindas à s cheias, porque com estas cheias a falta de água no meio rural toma fim”, comentou.
“Por exemplo, este ano nada nos impede de dizer que não teremos falta de água no meio rural porque as chimpacas [reservatórios de águas] estão cheias, o nÃvel de água estará também saturado e as pessoas vão fazer escavações tradicionais para poderem encontrar água para o seu consumo e dos animais”, acredita.
“Então, estamos a classificar o inÃcio como um bom ano, tendo em conta que a água está a passar mesmo em locais onde não choveu bastante. Esperamos então que a chuva continue a cair para facilitar o trabalho dos campos, para a população ter água e alimentação”, insistiu.
Reconheceu que as cheias concorreram para a paralisação das aulas em muitas escolas, “sitiadas pelas cheias, onde nem professores e alunos conseguem chegar”, considerando tratar-se de consequências passageiras.
Em relação à s águas que pelo municÃpio do Namacunde transcorrem até à República da NamÃbia, Apolo Ndinoulenga minimizou este percurso natural da água, recordando que Angola partilha com o paÃs vizinho as chanas e o rio Cunene.
“Mas, também o relevo do Cunene, por onde passa a água, é o mesmo relevo que está na República da NamÃbia (…). Não há qualquer problema de vizinhança, porque este é um fenómeno natural e eles sabem que quem empurra as águas para lá não são os angolanos, mas sim a natureza”, concluiu o governante.
DYAS // JH
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