
DÃli, 19 set 2025 (Lusa) — A organização não-governamental (ONG) timorense Fundasaun Mahein (FM) afirmou hoje que os protestos de estudantes em DÃli resultam de falhas profundas das elites na promoção de um desenvolvimento equitativo e na inclusão polÃtica.
“Durante muitos anos, a FM e outros alertaram que, se as elites polÃticas continuassem a ignorar as preocupações dos cidadãos comuns, a enriquecer com recursos públicos e a negligenciar a questão da transição geracional de liderança, o resultado seria um aumento do descontentamento e um conflito sociopolÃtico violento”, pode ler-se num artigo divulgado pela organização.
Segundo a FM, os lÃderes que se “apoiam apenas na legitimidade do passado, adiando a renovação polÃtica dificilmente construirão instituições suficientemente resilientes para suportas as pressões emergentes”.
“Pensam que a maioria dos jovens é estúpida, que não sabe. Eles é que falam bem inglês, eles é que se consideram inteligentes. Por isso, não falam de investimento nas pessoas. A educação está destruÃda, os problemas de saúde são graves. A maioria dos setores de investimento humano não é prioridade. Eles investem em si mesmo através de viagens, andam pelo mundo a dizer que são lÃderes”, disse à Lusa o diretor executivo da FM.
Nelson Belo defendeu que é necessário começar a discutir com as novas gerações, caso contrário Timor-Leste nunca se vai desenvolver.
“Têm de começar a falar sobre o que chamamos de transferência de poder para a geração jovem. Muitos jovens formaram-se em Harvard, em Oxford, em universidades muito prestigiadas. Falam muito bem português e inglês, estão bem preparados para governar o paÃs. Mas estes homens continuam lá. Continuam a falar do passado, dos problemas da luta na selva, do tempo em que estavam no estrangeiro, mas não falam de desenvolvimento, de investimento nos jovens, do futuro do paÃs”, salientou o analista polÃtico.
Na análise aos protestos dos estudantes, a FM denuncia que o recrutamento e ascensão polÃtica em Timor-Leste continua enraizado na “lealdade a lÃderes e partidos estabelecidos, em vez da competência e integridade”.
“Os grupos de artes marciais e rituais estão entre as poucas organizações que recrutam sistematicamente jovens e os envolvem na polÃtica, o que tem sido motivo de séria preocupação para muitos observadores”, salienta o artigo.
Os universitários timorenses saÃram à rua para a exigir o cancelamento da compra de novas viaturas para os deputados, o fim da pensão vitalÃcia para os parlamentares, a revisão da lei sobre liberdade de reunião e manifestação e financiamento adequado para os setores produtivos no debate do próximo Orçamento do Estado, que terá inÃcio em outubro.
Na quarta-feira, os cinco partidos que compõem o parlamento comprometeram-se com as exigências dos estudantes, um dia depois de terem aprovado uma resolução a cancelar a compra de viaturas.
Para a FM, se a cedência dos deputados “demonstra a força da pressão cÃvica”, por outro lado, a rapidez com foi feita “levanta dúvidas sobre se estas representam reformas genuÃnas ou se são apenas uma forma de apaziguamento por parte das elites”.
“É também importante notar que as questões que dominaram os protestos, embora sejam poderosos sÃmbolos de autoenriquecimento das elites não são os problemas de governação mais graves que o paÃs enfrenta”, adverte a FM.
Para a organização, o problema mais grave é a “corrupção e captura do Estado”, incluindo “abuso sistemático de contratos públicos, desvio de fundos estatais e a expansão contÃnua das pensões para veteranos, que consomem muitos mais recursos do que veÃculos ou benefÃcios parlamentares”.
A FM defende que o setor produtivo deve ser a prioridade, para melhorar os padrões de vida e diminuir a “dependência insustentável das reservas petrolÃferas”.
“O futuro do desenvolvimento polÃtico de Timor-Leste será determinado não por gestos simbólicos, mas pela capacidade das lideranças polÃticas em cumprir o essencial: oportunidades económicas inclusivas, serviços públicos funcionais, participação da juventude e fim da corrupção e do nepotismo”, concluiu.
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