
Lisboa, 29 nov 2021 (Lusa) — De um projeto utópico de pensar o futuro da cidade e tornar Lisboa sustentável em termos alimentares nasceu o Upfarming, ou hortas verticais rotativas, ocupando espaços vazios disponÃveis e envolvendo a comunidade local.
Com uma ambição também social, o projeto piloto instalado no Museu da Cidade de Lisboa foi levado para Alvalade, onde irá envolver as comunidades dos bairros da Murta e de São João de Brito, conforme explicou à Lusa Margarida Villas-Boas, uma das fundadoras da Upfarming.
“A nossa tecnologia, quando comparada com a agricultura horizontal tradicional, produz 10 vezes mais, tem uma grande vantagem para o clima como o nosso, do sul da Europa, poupa 90% da água. Sabemos que a gestão de recurso hÃdricos em Portugal será um dos temas mais prioritários em termos de alterações climáticas no futuro”, disse a responsável.
As ‘upfarms’ são hortas verticais rotativas com seis metros de altura, compostas por 22 prateleiras de 2,4 metros de largura e “que vão rodando lentamente ao longo do dia, podendo ter mais de 800 vegetais diferentes em produção, produzindo cerca de 100kg por mês, o que dá para alimentar 40 pessoas”, conforme explicou Bruno Lacey, também mentor da Upfarming e fundador da Urban Growth, uma empresa social que cria e mantém espaços verdes em Londres.
Segundo este responsável, o movimento rotativo da torre vertical “permite não só que a fotossÃntese seja feita com luz solar, como permite que as prateleiras sejam acessÃveis a toda a gente, desde crianças, idosos ou pessoas com mobilidade reduzida”.
“Podemos montar nesta horta muito mais plantas que numa horta tradicional e por ser vertical podemos ter este tipo de horta no centro da cidade, temos um sistema bastante simples, ‘low tech’ e com pouca energia para rodar, mas uma colheita muito maior do que no sistema normal”, disse Bruno Lacey, referindo que, atualmente, há nove tipo de plantas a crescer.
De acordo com Margarida Vilas-Boas, a Upfarming é um projeto que tem no fundo uma ideia de “empoderamento das comunidades” onde estão inseridas, de forma a que estas se tornem “autossuficientes e com ferramentas para se organizarem”.
Enquanto solução, as hortas verticais primam “pela redução de pegada ecológica e têm um aumento do valor nutricional dos hortÃcolas”, já que há uma base de agricultura de proximidade com as hortÃcolas a serem produzidas a metros de distância onde são consumidas.
De acordo com os responsáveis, este tipo de agricultura não usa pesticidas, não esgota os solos, colmata o desperdÃcio alimentar e o desperdÃcio de água, tem igualmente uma redução energética, podendo ter uma produção 10 vezes maior do que se fosse agricultura tradicional na mesma área usada pela torre.
Para o arquiteto Tiago Sá Gomes, um dos três mentores do projeto, a Upfarming surgiu no ano passado como “um projeto utópico” para o qual foram convidados a pensar Lisboa como cidade de futuro e de como se “poderia tornar uma cidade soberana a nÃvel alimentar”.
“Começamos a pensar que vazio poderÃamos ocupar a cidade, que espaços tÃnhamos disponÃveis para implementar estas tecnologias e de que forma poderiam servir a comunidade”, explicou Tiago Sá Gomes, sublinhando que tem “um ângulo económico e social de valor acrescentado”.
Considerando que se pode tratar de um dispositivo futurista, Tiago Sá Gomes refere igualmente que, “se usado da maneira certa, pode ser uma ferramenta que permita à s pessoas desbloquearem uma série de preconceitos que têm com estas tecnologias do futuro”, sublinhando que se podem e devem replicar em outros locais da cidade.
Criado no âmbito do programa Câmara Municipal de Lisboa Bip-Zip – Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária, com o apoio conjunto da Junta de Freguesia de Alvalade, a Upforming surgiu com o intuito de promover a autossustentabilidade alimentar pela horticultura vertical para consumo das comunidades locais, com enfoque nos bairros das Murtas e São João de Brito, em Alvalade, onde estão implantadas quatro mega torres verticais.
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