
Luanda, 30 mar 2026 (Lusa) — Líderes associativos e importadores de fertilizantes em Angola estão apreensivos com o impacto da subida de preços desta matéria-prima nos mercados internacionais, perspetivando um aumento das dificuldades dos produtores que estão dependentes de importação.
O conflito militar que opõe os Estados Unidos da América (EUA) e Israel ao Irão, desde fevereiro deste ano, afetou as exportações de fertilizantes, nomeadamente a ureia, amónia, fosfatos e enxofre, que passam pelo estreito de Ormuz, atualmente encerrado para a maior parte dos países.
Para o diretor da Ação para o Desenvolvimento Rural e Ambiente (ADRA), Simione Chiculo, as consequências são iminentes, porque Angola vive de importações, principalmente de consumíveis agrícolas, em particular os fertilizantes.
Angola, em 2025, segundo dados do Ministério da Agricultura e Florestas, importou 129.990 toneladas de fertilizantes.
Simione Chiculo sublinhou que, não estando ainda em atividade a fábrica de fertilizantes no município do Soyo, província do Zaire, os camponeses angolanos vão sentir os efeitos de forma direta, principalmente a partir do próximo ano agrícola.
O responsável destacou que Angola apresenta grandes necessidades de fertilizantes, porque a maioria dos solos precisa de ser fertilizado.
“O facto de termos cerca de 35 milhões de hectares de solos aráveis não quer dizer que todos são naturalmente férteis, na sua maioria, principalmente na zona do planalto e também do leste e do norte, onde chove muito, esse processo faz com que os solos sejam permanentemente lixiviados”, explicou.
De acordo com o diretor da ADRA, a combinação das chuvas e a altitude acelera o processo de lixiviação dos solos, sendo necessário anualmente a substituição dos nutrientes dos solos com fertilizantes para o aumento da produtividade.
Para a autossuficiência do milho que o país almeja, atualmente com uma média de produção de duas toneladas por hectare, contra a média mundial acima de sete toneladas por hectare, “a fertilização dos solos será uma condição ‘sine qua non’”, exemplificou Simione Chiculo.
“Com esse problema que se criou, certamente a situação vai se agravar. Nós já não estávamos bem, o que vai acontecer é que vai piorar (…), daí que a saída que nós sempre sugerimos é limitarmos esta nossa dependência das importações”, disse.
O diretor da ADRA confessou recear que, numa situação de défice desta matéria-prima, a tendência seja privilegiar os grandes produtores em detrimento dos pequenos agricultores, que sustentam mais de 80% da produção nacional, apesar do discurso governamental de maior atenção à agricultura familiar.
Em declarações à Lusa, o diretor comercial da Solevo Angola, empresa de importação de fertilizantes, disse que, devido à guerra, está impossível encomendar qualquer tipo de adubo no mercado internacional.
Segundo Renaud Chazeaux, o quadro atual é marcado por uma procura maior que a oferta, com os fornecedores a recusarem-se a atender quem encomenda grandes quantidades.
A fonte sublinhou que a guerra no Médio Oriente impacta bastante quer na produção de adubos, como a ureia, quer no transporte marítimo dos produtos, afetando os preços.
“Por exemplo, os preços dos contentores entre a China e África subiram 50% em duas semanas”, disse o diretor comercial da Solevo Angola, que importa por ano 30 mil toneladas, considerando que para já não há um impacto grande para Angola, prevendo-se que a situação se altere na próxima campanha agrícola (2026-2027).
“Porque as pessoas vão ter de comprar um novo ‘stock’ [de fertilizantes] e até lá os preços vão subir entre 30% a 40%. A ureia no mercado internacional hoje subiu 100% (…), isso vai impactar os preços do mercado no futuro, mas, por enquanto, estamos no final da campanha agrícola, isso vai impactar menos”, acrescentou.
Por sua vez, a presidente da Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas Agropecuárias de Angola (Unaca), Ricardina Machado, lembrou que, mesmo antes da guerra, o problema dos fertilizantes em Angola “já era gritante”.
“Os camponeses não conseguem trabalhar porque os preços são muito altos, muitos ficam endividados para comprar os fertilizantes”, disse Ricardina Machado, relatando também a demora na entrega que impacta a preparação das terras.
Ricardina Machado perspetivou um escalar dos problemas, já que a maioria usa fertilizantes.
Por isso, “com a guerra, a gritaria vai ser maior”, disse, sublinhando que faz falta uma fábrica em Angola.
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