Portas da Escola Cantina Salazar abrem na sexta-feira em Santa Comba Dão para uma nova vida

Santa Comba Dão, Viseu, 22 out 2026 (Lusa) — Após mais de 20 anos na cabeça dos autarcas de Santa Comba Dão, o polémico projeto que dará vida à Escola Cantina Salazar será avaliado pelo que realmente é e não pelo que alguns temiam que fosse.

O Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência abrirá portas na sexta-feira à tarde, no Vimieiro, naquela que foi uma escola modelo do Estado Novo, com coordenação científica da Associação Ephemera, fundada por Pacheco Pereira.

“O trabalho desenvolvido até aqui foi muito importante, isso ninguém põe em causa, mas era preciso tomar uma decisão e tomou-se”, frisou à agência Lusa Inês Matos, presidente da Câmara de Santa Comba Dão, que foi eleita nas últimas autárquicas pela coligação PSD/IL.

A ideia de aproveitar o edifício dos anos 40 do século XX, situado na terra onde nasceu António Oliveira Salazar, figura maior do Estado Novo, passou por vários presidentes de Câmara antes de Inês Matos.

Segundo a autarca, foi preciso que “a vontade política se sobrepusesse ao ruído” em torno do projeto e aos receios de que estaria a ser preparado um museu dedicado ao ditador.

“Não queremos nenhum local de culto. Queremos mostrar que é possível abrir-se um centro interpretativo desse período da história de forma isenta e imparcial”, garantiu.

Na sua opinião, “todo o trabalho feito ao longo destes anos foi necessário, porque evitou precipitação”.

“Foi também preciso ouvir o ruído criado à volta do projeto para nos fazer refletir sobre aquilo que queríamos implementar, de maneira a que pudesse estar aberto e fosse apreciado por todos”.

Em menos de um ano de mandato do atual executivo, a decisão foi tomada e executada, com trabalhos por administração direta que implicaram um “esforço muito grande” dos funcionários da autarquia e que não terminam agora, porque este é um projeto que será dinâmico.

“Não se quer um museu a Salazar, mas também não se quer um espaço onde se diga mal da figura principal. Nem uma coisa nem outra. Quer-se um espaço de debate, onde há espaço para todos estudarem, conhecerem, investigarem e debaterem. Quer-se um espaço aberto a todos”.

O Centro Interpretativo do Estado Novo terá uma programação regular de exposições temáticas e de iniciativas de reflexão, como debates, mesas-redondas e conferências, de forma a incentivar os visitantes a regressarem frequentemente.

O edifício integra uma biblioteca temática com um espaço para consulta, uma sala de exposição permanente com trabalhos de David Oliveira (artista autodidata na arte da medalhística e da escultura, falecido em 2014) e uma sala de aula da época.

Para a abertura foi escolhida a exposição “Só existe o que se sabe que existe — A censura no Estado Novo” e esta temática será ligada à música, que faz parte do património imaterial deste concelho do distrito de Viseu, que tem três bandas filarmónicas e um conservatório.

“Na sexta-feira vamos ter um artista local, o Diogo Martins, que vai dar um espetáculo fantástico com músicas de Zeca Afonso, interpretadas com o seu toque pessoal”, avançou Inês Matos.

Depois dos três dias da festa de abertura, a autarca espera ver o edifício encher-se com alunos das escolas, investigadores, académicos e pessoas de Santa Comba Dão.

“Gostava muito que os santacombadenses recordassem esta escola como um património seu que foi recuperado”, frisou.

João Santos, de 29 anos, frequentou esta escola durante dois anos e o regresso à sua sala de aulas provocou-lhe saudades da vida de criança, apesar de em cima da secretária do professor estarem as tão temidas palmatória e cana-da-índia.

As pernas de João já são grandes para o assento da carteira onde se sentou para contar à Lusa algumas das recordações que tem desses tempos: os jogos de futebol no átrio agora transformado em auditório e as birras para comer a sopa nas mesas de mármore do refeitório.

Onde aprendeu letras e números, João Santos espera agora que outros aprendam sobre o período do Estado Novo: “Vamos continuar a contar a nossa História, a História de Portugal, com muitas atividades e eventos”.

“E o concelho vai ganhar muito através dos nossos turistas. O desenvolvimento social, o desenvolvimento turístico, os nossos operadores turísticos também vão ganhar bastante”, acrescentou.

Com coordenação científica da Associação Ephemera, este equipamento tem como objetivo promover o estudo, o conhecimento e a reflexão sobre o período do Estado Novo, dar a conhecer as diferentes dimensões do regime e as formas de resistência à ditadura.

*** Ana Maria Ferreira (texto) e Paulo Novais (fotos e vídeo), da agência Lusa ***

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