
Bissau, 21 out 2026 (Lusa) – A Polícia Judiciária da Guiné-Bissau anunciou, em comunicado, que apreendeu um lote de vacinas contra a hepatite B destinadas a recém-nascidos num estabelecimento associado a um ensaio clínico financiado pelos Estados Unidos e atualmente suspenso.
“Esta intervenção resultou na apreensão de um lote de vacinas contra a hepatite B, destinadas à vacinação de crianças no país”, lê-se no comunicado da Polícia Judiciária (PJ) guineense, no qual se indica que foi feita, na segunda-feira, uma operação de busca nas instalações do Projeto Saúde de Bandim, em Bissau.
No comunicado, citado pela agência francesa de notícias, a France-Presse (AFP), a PJ afirma que esta operação “insere-se no âmbito de investigações que visam esclarecer as circunstâncias em torno deste lote de vacinas”, e tem também como objetivo “preservar o interesse público e proteger a saúde das crianças.
Segundo a polícia, a apreensão do lote de vacinas é apenas “um ato de investigação” e, “por si só, não permite concluir pela existência de irregularidades no que diz respeito à qualidade, segurança ou eficácia das vacinas”.
O centro de pesquisa dinamarquês Projeto Bandim recebeu, no princípio do ano, luz verde da Guiné-Bissau para avançar com o estudo, que é financiado com 1,6 milhões de dólares pelo Centro norte-americano de Controlo e Prevenção de Doenças, dependente do equivalente ao Ministério da Saúde nos governos europeus.
Em fevereiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou “antiético” o estudo que implica excluir parte dos recém-nascidos da administração da vacina contra a hepatite B à nascença.
O arranque do ensaio clínico estava previsto para o início deste ano, mas as autoridades guineenses anunciaram, em janeiro, que tinha sido suspenso, depois da polémica que se gerou com a contestação de vários especialistas.
Para a OMS, este plano experimental, que teria como propósito estudar a reação à doença em recém-nascidos vacinados e outros que não recebiam a vacina, “é contrário à ética”, por implicar deixar crianças sem as doses da vacina à nascença.
“Isso poderia expô-las a uma alta probabilidade de infeção, o que implica um número significativo de mortes”, alertou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, numa conferência de imprensa, a 11 de fevereiro.
O Departamento de Saúde dos EUA financia com 1,6 milhões de dólares (1,35 milhões de euros) o ensaio clínico previsto para o Projeto de Saúde de Bandim, em Bissau, que implicava também o início da administração da vacina contra a hepatite B ao nascer.
O Governo guineense anunciou, em janeiro, que tinha cancelado o ensaio clínico e adiado a introdução da vacina até 2028, mantendo o atual plano nacional contra a doença, com a vacinação às seis, dez e 14 semanas.
O ensaio clínico que estudaria os diferentes efeitos da vacinação contra hepatite B à nascença abrangia 14.000 recém-nascidos na Guiné-Bissau, sendo que metade seria imunizada ao nascer e a outra metade mantinha o atual plano com a primeira vacina às seis semanas de vida.
“Negar a metade das crianças do mundo o acesso a uma vacina que está disponível, é segura e eficaz há mais de 14 anos, é antiético”, afirmou o diretor-geral da OMS, organização que tem como meta até 2028 garantir a vacinação nas primeiras 24 de horas de vida contra a doença em países com prevalência alta da hepatite B, como é o caso da Guiné-Bissau.
Numa das várias declarações de resposta aos protestos, os responsáveis do Projeto Bandim argumentam que não é retirada qualquer dose aos bebés, uma vez que o plano de vacinação guineense não prevê a administração aos recém-nascidos.
Reconhecendo que “o efeito protetor da vacina contra a infeção pela hepatite B está bem estabelecido e não é questionado”, apontam ainda que o estudo versa uma questão diferente: “Quais são os efeitos gerais na saúde – positivos, neutros ou negativos – da introdução da dose ao nascimento juntamente com a BCG e a vacina oral contra a poliomielite neste contexto específico?”.
A Guiné-Bissau é um dos países mais afetados pela hepatite B, tendo um rácio de quase uma em cada cinco pessoas infetadas com a doença que mata 15 a 25% das pessoas com infeções crónicas, ao causar cancro ou insuficiência renal, escreve a revista Rolling Stone.
MBA (HFI) // MLL
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