
Nações Unidas, 12 abr 2023 (Lusa) – O peso da dÃvida nos paÃses pobres está a subir para nÃveis “sem precedentes” devido ao aumento das taxas de juro, acarretando custos de centenas de milhares de milhões de dólares, alertou hoje a ONU.
Estes aumentos dos juros dos últimos meses, principalmente nos Estados Unidos e na Europa para conter a inflação, podem custar 800 mil milhões de dólares (727,6 mil milhões de euros) aos paÃses em desenvolvimento até 2025, calcula a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) num relatório hoje apresentado.
Segundo a agência da ONU, o número de paÃses que gastaram mais com o serviço da dÃvida externa do que com o sistema de saúde quase duplicou na última década, passando de 34 para 62.
As subidas das taxas diretoras decididas pelos bancos centrais “aumentam o custo do peso da dÃvida para todos, mas pesam mais nos paÃses em vias de desenvolvimento”, sublinhou à agência France Press (AFP) Jeronim Capaldo, um dos autores do relatório, que também lança dúvidas sobre a utilidade da polÃtica monetária para conter o aumento dos preços.
Impulsionada pelos preços da energia e dos alimentos, a inflação continua alta porque, segundo Capaldo, “não tem nada a ver” com as taxas de juro e está, de facto, ligada à forma como as matérias-primas são comercializadas globalmente.
“O risco (…) é que estamos a ir no caminho errado”, disse.
A dÃvida dos paÃses em desenvolvimento estará em discussão nas reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, que se realizam esta semana em Washington, mas as soluções continuam “simbólicas”, lamenta o especialista.
A UNCTAD pede, assim, uma revisão do sistema de dÃvida soberana global e que se facilite o acesso dos paÃses em desenvolvimento à liquidez quando enfrentam crises.
A agência também defende a criação de um órgão independente para avaliar a sustentabilidade da dÃvida dos paÃses, atualmente fornecida pelo FMI ou pelo Banco Mundial.
Estas instituições “são credores importantes, mas ao mesmo tempo responsáveis pela auditoria das contas públicas dos Estados”, nota Capaldo, assegurando que este conflito de interesses “não ajuda ninguém e muito menos os paÃses devedores”.
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