Pelo menos 5.794 pessoas fugiram de ataques em Cabo Delgado em três semanas

Maputo, 26 out 2026 (Lusa) — Pelo menos 5.794 pessoas fugiram entre 21 de setembro e 13 de outubro de várias localidades da província moçambicana de Cabo Delgado devido a ataques de grupos insurgentes armados, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

De acordo com o mais recente relatório do mecanismo de monitorização de deslocações de emergência (ETT) da OIM, os movimentos populacionais envolveram 5.794 pessoas, correspondentes a 1.785 agregados familiares, nos distritos de Nangade, Macomia, Muidumbe, Mocímboa da Praia, Montepuez e Mueda.

Segundo a organização, as deslocações foram desencadeadas por ataques e pelo receio de novos ataques perpetrados por grupos armados não estatais. Os maiores movimentos foram registados em Nambedo, distrito de Nangade, de onde saíram 2.682 pessoas, seguindo-se Mirate, em Montepuez, com 995 deslocados, Chai, em Macomia, com 606, Pangane, também em Macomia, com 448, e Miengueleua, em Muidumbe, com 370.

A maior parte da população deslocada foi acolhida em Nangade, que recebeu 3.041 pessoas neste período, equivalente a 52% do total, incluindo 2.307 deslocados instalados em Nambedo e 734 no Centro de Muadi.

No distrito de Macomia foram registadas 1.424 chegadas, sobretudo no Centro de Nondje, em Muagamula, que acolheu 815 pessoas, seguindo-se os centros de Serração, Xinavane e Songueia.

O distrito de Montepuez recebeu 995 deslocados na localidade de Nacuca, posto administrativo de Mararange, enquanto Mueda acolheu 167 pessoas. Foram ainda registadas chegadas de 95 deslocados a Mocímboa da Praia e de 72 a Muidumbe.

A maioria dos deslocados fez o percurso a pé ou de autocarro. Entre a população afetada contabilizam-se 968 homens, 1.690 mulheres e 3.136 crianças, que representam 54% do total. A OIM identificou ainda 119 mulheres grávidas, 88 idosos com mais de 60 anos, 35 crianças desacompanhadas ou separadas das famílias, 38 pessoas com deficiência e 10 pessoas com doenças crónicas entre os deslocados.

Segundo o levantamento, alimentação, abrigo e bens não alimentares constituem as necessidades mais urgentes da população afetada, referidas respetivamente por 97%, 94% e 74% dos locais avaliados.

Os novos dados consolidam os 4.445 deslocados contabilizados no anterior alerta de movimentos populacionais da OIM, aos quais se juntaram mais 1.349 pessoas deslocadas entre 06 e 13 de outubro.

Cabo Delgado, província rica em gás natural no norte de Moçambique, é assolada desde 2017 por uma insurgência armada que já provocou mais de 6.600 mortos e mais de 1,2 milhões de deslocados, segundo organizações internacionais.

Os incidentes associados ao conflito na província moçambicana aumentaram 10% no primeiro semestre de 2026 face ao mesmo período de 2025, com os raptos a serem cada vez mais utilizados para obtenção de resgates e recrutamento forçado, incluindo de crianças.

A conclusão consta do relatório “Moçambique: O custo da inação”, divulgado em setembro pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), que descreve um agravamento da situação de segurança no norte do país e alerta para o impacto crescente da violência sobre civis.

Segundo o documento, “nos primeiros seis meses de 2026, foram registados mais de 400 incidentes de conflito, 10% mais do que no mesmo período de 2025”, incluindo homicídios, destruição de habitações, pilhagens e raptos.

Atualmente, cerca de 1,38 milhões de pessoas sofrem consequências da deslocação em Cabo Delgado, incluindo aproximadamente 662 mil deslocados internos e 722 mil habitantes que regressaram às respetivas zonas de origem.

“Por detrás destes números estão famílias repetidamente forçadas a abandonar as casas, crianças cuja educação foi interrompida e comunidades cujos meios de subsistência e acesso a serviços básicos foram destruídos”, refere a ONU.

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