Peça “Oleanna” de David Mamet estreia-se no S. Luiz com encenação de Carlos Pimenta

Lisboa, 05 dez 2025 (Lusa) — O Teatro S. Luiz, em Lisboa, estreia, no sábado, a peça “Oleanna”, com encenação de Carlos Pimenta, que regressa ao texto do dramaturgo e realizador norte-americano David Mamet, 16 anos após tê-lo posto em cena no Porto.

Carlos Pimenta disse à agência Lusa que decidiu aceitar o convite do S. Luiz para regressar à peça, por “gostar muito da escrita de Mamet”, que encenara pela primeira vez em 2008, com “Variações à beira de um lago”, para a Companhia de Teatro de Almada, mergulhando, no ano seguinte, em “Oleanna”, obra para dois atores com o assédio por tema, estreada em maio, no cinema Passos Manuel, no Porto, com a companhia Ensemble de Atores.

Aliado à escrita “um pouco estranha” do autor norte-americano, de que gosta muito, “cheia de interrupções e de coisas que não são resolvidas, dando muito espaço a quem assiste para poder tirar conclusões”, o encenador e responsável pela cenografia teve ainda o desafio de, pela primeira vez, dirigir os atores premiados João Pedro Vaz e Bárbara Branco, acrescentou.

E se Carlos Pimenta já contracenara como ator com João Pedro Vaz, com Bárbara Branco “desejava trabalhar, por ser uma atriz incrível, tendo em conta a juventude e as capacidades muito grandes”.

Além disso, ao fim de 16 anos, o texto “progride no social e politicamente”, sublinhou à Lusa.

Escrita em 1992, “Oleanna” centra-se no confronto entre o professor universitário John e sua aluna Carol, que o acusa de assédio sexual.

A ação decorre no gabinete de John, marcado por tons de cinzento, onde as personagens se digladiam pelo discurso e pelo poder, pondo a nu tensões de género e de comunicação.

Quando a peça foi escrita, o movimento #MeToo e a “cultura do cancelamento” davam os primeiros passos nos Estados Unidos. Hoje, o texto ganha “um eco diferente”, afirma Carlos Pimenta, observando que continua “atualíssimo”, por se reportar a acontecimentos que se vivem no dia-a-dia, tendo em conta casos de assédio divulgados, como os ocorridos no ano passado em “duas ou três universidades, e que tiveram grande repercussão.

Uma das pedras de toque de “Oleanna” “tem a ver com a comunicação”, disse Carlos Pimenta, destacando a “improbabilidade da comunicação” à semelhança da teoria defendida pelo sociólogo alemão Niklas Luhmann (1927-1998), para quem “a comunicação era improvável”.

Esta evidência está patente na peça, em que parece que o assunto ficará resolvido entre professor e aluna, mas tal acaba por não acontecer “já que cada um constrói a sua narrativa, sem que abdiquem delas”, o que prova “que quem domina o discurso, domina o poder”.

Na atualidade, “na era do pós-verdade, dos factos e das verdades alternativas”, “a peça ganha ainda mais atualidade”, frisou Carlos Pimenta.

Sem querer deixar transparecer nenhum ponto de vista, o encenador deixa para o espectador a possibilidade de “imaginar a sua própria peça e tirar as suas próprias conclusões”, embora seja um texto “fácil de tomar partido”, disse à Lusa, à margem de um ensaio.

Para o encenador, porém, não é essa facilidade que se impõe: “Apesar de, muitas vezes, a temática se sobrepor ao texto”, isso é “um bocadinho complexo”, porque faz com que “o teatro e os atores desapareçam em função da temática”.

Portanto, mesmo que em qualquer momento tivesse sido “fácil tomar partido”, não foi esse o rumo seguido, para que prevaleça o rigor do texto, o drama, o teatro em si mesmo.

Num texto que podia chamar-se “peça para dois atores”, caso Tennessee Williams já não a tivesse escrito, “Oleanna” “é um exercício de trabalho de atores absolutamente incrível”, frisou o encenador.

“O ‘speak’ de Mamet é muito difícil de fazer”, já que no texto “tudo se atropela e anda às voltas”, aparentando “um improviso que não o é de todo”, porque tudo “esta rigorosamente trabalhado”, disse.

A orgânica entre os atores tem a ver com a definição de teatro de Mamet, que não considera a peça “uma apresentação da vida, mas uma vida” a acontecer no palco”.

“O que acho ótimo, porque existem flutuações diárias e nem todos os dias os seres humanos têm o mesmo estado de espírito”, frisou Carlos Pimenta, que vê nesta perspetiva “um dos grandes encantos da escrita de Mamet”.

Instado a definir a peça, Carlos Pimenta considerou-a “uma peça para dois atores, com tudo o que implica, já que se centra no trabalho de atores”.

Sem guiar o espectador para o lado do professor ou da aluna, Carlos Pimenta pôs em cena um espectáculo para “o público preencher os vazios que Mamet deixou”, em que a ação, tal como a complexidade da vida, “se joga na enorme camada de cinzentos”. “Porque no preto e branco estão os extremos”, concluiu.

Em cena até 21 de dezembro, na sala Mário Viegas, a peça tem sessões de quarta-feira a sábado, às 19:30, e, ao domingo, às 16:00.

Com tradução de Vera San Payo de Lemos e João Lourenço, “Oleanna” tem figurinos de José António Tenente, desenho de luz de Rui Monteiro e coreografia de luta de Miguel Frazão.

CP // MAG

Lusa/fim