Papa destaca laicismo, IA e eutanásia no 1º discurso em França

Paris, 25 set 2026 (Lusa) – O Papa Leão XIV falou hoje sobre o laicismo e alertou para os perigos da inteligência artificial e as questões relativas ao fim da vida no primeiro discurso da sua visita de quatro dias a França.

“O verdadeiro laicismo não consiste em excluir a religião da esfera pública”, disse Leão XIV em francês para uma plateia cheia reunida no salão de receção do Palácio do Eliseu.

Numa intervenção que durou cerca de duas horas, o Papa considerou que o laicismo francês “não é, de forma alguma, a negação da religião” referindo que a República Francesa está a combater “o ressurgimento” de atos antirreligiosos “insuportáveis”, que “atingem a religião cristã” e dos quais “as comunidades judaica e muçulmana também são vítimas”.

Leão XIV saudou o aumento de batismos que se tem registado em França, considerando que existe uma “sede espiritual”.

Além disso, defendeu que “as escolas católicas têm o seu lugar de direito no panorama educativo de um país como a França”, mesmo que o estatuto das escolas privadas, que educam mais de 2 milhões de alunos naquele país, seja regularmente questionado.

Considerando “urgente” o diálogo entre “pessoas de diferentes origens culturais e religiosas”, o Papa abordou também questões bioéticas, denunciando a “manipulação genética”, a “barriga de aluguer”, a “obtenção de órgãos” e a “oferta de morte assistida”, que apresentou como abusos que correm o risco de “desviar a ciência e a tecnologia para empreendimentos lucrativos”.

Há dois meses, o parlamento francês aprovou uma lei que cria o direito à “morte assistida”, uma medida fortemente contestada pela Igreja.

Tendo feito da IA um tema central no início do seu pontificado, o Papa alertou também para o risco de se perder a humanidade “no meio do ‘paraíso das máquinas’ e apelou ao desenvolvimento de “discernimento ético” num contexto de crescente preocupação com a regulamentação das ferramentas de inteligência artificial.

O Presidente francês já tinha defendido, no seu discurso, a criação de uma “organização internacional” para impedir que a IA se concentre em “poucas mãos”.

Leão XIV, que recebeu uma longa ovação dos presentes no Palácio do Eliseu, afirmou ainda que “a França está frequentemente no centro das [suas] orações”, acrescentando que “não se esquece das suas origens familiares normandas e bearnesa”.

Neste primeiro dia de viagem, o Papa, de 71 anos, discursará por volta das 15:00 locais (14:00 em Lisboa) na UNESCO, antes de uma caminhada de 2,5 km no papamóvel pelo centro de Paris.

À noite, espera-se que uma grande vigília de oração reúna 80.000 jovens no Stade de France, em Saint-Denis, a norte de Paris, para um programa que combina música pop e adoração, conversas com o Papa e uma exposição da “Santa Túnica de Cristo”, uma relíquia guardada em Argenteuil (Val-d’Oise).

Esta visita, que passará por Paris, Lourdes e Metz, exige uma segurança extremamente rigorosa, reunindo 17.000 voluntários, 15.000 polícias e polícias militares, 2.500 jornalistas credenciados e um orçamento de 27 milhões de euros.

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