Países lusófonos entre os bons exemplos dos locais designados pela UNESCO

Lisboa, 21 abr 2026 (Lusa) – Os países de língua oficial portuguesa estão entre os bons exemplos de nações que têm locais designados pela UNESCO que são “refúgios vitais para a biodiversidade”, segundo um dos coautores do relatório da organização hoje publicado.

Em declarações à Lusa, Tales Carvalho Resende, um dos coautores principais do relatório da UNESCO intitulado “Pessoas e natureza em locais designados pela UNESCO: contribuições globais e locais”, revela que as ilhas dos Bijagós, na Guiné-Bissau, que foram elevadas a Património Mundial Natural em 13 julho de 2025, tornando-se no primeiro local do país africano a integrar a lista da UNESCO, “são um sítio excecional” no qual, por exemplo, também existe uma relação extremamente forte com as populações locais, que têm protegido sempre o ambiente.

O relatório da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), divulgado hoje, apresenta a primeira avaliação global de mais de 2.260 Sítios do Património Mundial, Reservas da Biosfera e Geoparques Globais — “uma rede que cobre uma área maior que China e Índia juntas e que apoia cerca de 10% da população mundial em mais de 175 países”, lê-se no relatório.

No relatório, que mede o valor global e as contribuições dos sítios da UNESCO, revela-se, segundo a organização, o que se pode perder “se não lhes for dada prioridade”.

Uma das principais conclusões do relatório é que, “embora as populações de animais selvagens tenham diminuído 73% em todo o mundo desde 1970, aquelas que vivem nas áreas protegidas pela UNESCO permaneceram comparativamente estáveis” e, “nesses sítios, foram registadas mais de mil línguas, e a área de um quarto deles coincide com territórios de povos indígenas”.

“É um apelo urgente para ampliar o nível de ambição e reconhecer os sítios da UNESCO como ativos estratégicos para fazer face às alterações climáticas, à perda de biodiversidade e para investir agora na proteção dos ecossistemas, das culturas e dos modos de vida para as gerações futuras”, declarou, em comunicado, o diretor-geral da UNESCO, Khaled El-Enany.

Por outro lado, e como Resende explica, “o grande destaque [deste estudo], que é bastante encorajador, é que, apesar da intensificação das pressões ambientais em todo o mundo”, os locais designados pela UNESCO mostraram-se extremamente resilientes.

Entre eles, Resende, cita a inscrição em Moçambique do Parque Nacional de Maputo como extensão do parque de Iangalço na África do Sul “o que mostra, por exemplo, que esses locais da UNESCO também são sítios para a promoção da paz”. Com a mesma lógica, o autor refere também Angola no processo da extensão do Delta do Okavango.

Resende, um dos coautores principais juntamente com Martin Delaroche do relatório, explica que toda a questão de sítios transfronteiriços é extremamente importante também porque a natureza não conhece fronteiras.

Outro país referido é o Brasil, onde segundo Resende, existe um sítio na Amazónia onde é notável a relação com os povos indígenas. “Este relatório permitiu ver que 1/4 dos sítios da UNESCO está em territórios de povos indígenas e, no caso da América Latina, esse número chega a 50 por cento”.

Ainda sobre os países de língua oficial portuguesa, Resende ressalta o caso de São Tomé e Príncipe, que “é o único e o primeiro país do mundo a ser 100 por cento um sítio da UNESCO”.

Em declarações à Lusa, António Abreu, diretor da Divisão de Ciências Ecológicas e da Terra da UNESCO – que setembro de 2025 salientou a “dinâmica muito interessante” e o “crescimento significativo” das reservas da biosfera nos países lusófonos, destacando o trabalho da rede criada no âmbito da CPLP -, referiu também São Tomé e Príncipe, entre outros exemplos de locais lusófonos designados pela UNESCO.

“No relatório não se analisa especificamente a situação de um ou outro sítio em particular, mas é natural que alguns sítios contribuam mais, ou menos, em função da sua dimensão, localização e condições especificas. Como, por exemplo a Ilha do Príncipe, que é um ‘hot spot’ de biodiversidade, tal como a Madeira ou o Porto Santo, que possuem uma biodiversidade endémica muito expressiva ao nível das plantas e de alguns animais invertebrados. Ou o arquipélago dos Bijagos, ou a Reserva da Biosfera do Cerrado no Brasil, que também possuem especificades muito importantes seja na biodiversidade seja na paisagem, água ou cultura”, acrescentou.

À semelhança de São Tomé e Príncipe, Angola, Guiné Equatorial e Portugal foram classificados como Reserva Mundial da Biosfera, em setembro de 2025, na lista de 26 novos locais em 21 países.

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