
Praia, 12 ago 2026 (Lusa) – Organizações ambientais alertaram hoje para os efeitos da substituição da iluminação pública por tecnologia LED em Cabo Verde, apontando um aumento da mortalidade de aves marinhas e uma redução da nidificação de tartarugas em algumas ilhas.
“Há alguns meses que começámos a detetar alguns impactos da luz LED aqui na ilha de Santo Antão. Percebemos que várias cagarras, uma ave endémica de Cabo Verde, estão a ser mortas devido ao encandeamento. Aquela luz desorienta esses animais que têm hábitos noturnos, e eles caem no chão e aà ficam vulneráveis a predadores, como os gatos que estão nessa zona”, disse à Lusa Silvana Roque, diretora-executiva da Associação Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Terrimar).
Segundo a responsável, a organização identificou mais de 30 aves marinhas mortas nos últimos três meses na zona da Ribeira das Pombas, em Santo Antão, mortes que associa ao encandeamento provocado pela nova iluminação.
Silvana Roque disse que os casos foram registados em zonas onde a organização trabalha há vários anos e onde não tinha observado quedas de aves durante esse perÃodo.
“Temos as mesmas colónias e, poucos meses depois da mudança da iluminação, começaram a ocorrer quedas. Estudos mostram que o encandeamento provocado pela luz pode levar as aves marinhas a cair durante o voo”, afirmou.
O número de mortes registado é superior ao habitual na zona, onde a mortalidade de aves resultava sobretudo da predação nos ninhos e era inferior a 10 casos por ano.
A organização alertou que o aumento da mortalidade pode afetar as colónias de aves marinhas, algumas das quais têm uma reprodução lenta e põem apenas um ovo por época.
A Terrimar identificou também praias de nidificação de tartarugas onde a iluminação pública é suficientemente intensa para atingir toda a faixa costeira, dificultando a saÃda dos animais para a desova.
Segundo Silvana Roque, desde junho o número de ninhos registados numa dessas praias caiu para cerca de um terço do valor observado no mesmo perÃodo dos anos anteriores.
A organização considera que o impacto da iluminação não depende apenas da tecnologia LED, mas também da intensidade, cor e orientação da luz, e recomenda a instalação de proteções nas luminárias para direcionar a luz para o solo e evitar a sua projeção para praias e outras zonas de reprodução.
A Terrimar defende ainda que alterações significativas na iluminação pública sejam precedidas de estudos de impacto e de consultas às organizações de conservação da natureza.
Segundo Silvana Roque, a organização elaborou um mapa das zonas sensÃveis à iluminação em Santo Antão e entregou-o, juntamente com mapas de outras ilhas, à empresa responsável pela iluminação, mas algumas luminárias continuaram a ser instaladas em áreas consideradas sensÃveis.
Na ilha do Sal, o presidente do Projeto Biodiversidade, Albert Taxonera, alertou também para o aumento da iluminação pública, sobretudo ao longo da estrada entre Santa Maria e Espargos.
Taxonera disse à Lusa que a preocupação não está necessariamente relacionada com a tecnologia LED, mas com o aumento do número de pontos de luz, que pode afetar a fauna noturna.
O responsável destacou o risco para as tartarugas recém-nascidas, que usam a luz natural para se orientar para o mar e podem ser atraÃdas por fontes artificiais de luz.
O Projeto Biodiversidade defende a utilização de iluminação de menor impacto e a criação de um grupo de trabalho que reúna entidades públicas e organizações de conservação para avaliar as necessidades de iluminação em cada zona.
Na ilha Brava, o Projeto Vitó alertou novamente para a morte de aves marinhas após a substituição de lâmpadas amarelas de vapor de sódio por luzes LED brancas de alta intensidade.
A organização identificou aves de três espécies endémicas de Cabo Verde e de uma espécie migratória.
Algumas morreram após a colisão com a iluminação ou foram posteriormente predadas por gatos.
O Projeto Vitó defende que não sejam instaladas novas fontes de luz em zonas sensÃveis, que as luminárias existentes sejam direcionadas para o solo e que a iluminação seja reduzida durante os perÃodos crÃticos de reprodução.
Em abril de 2025, o Projeto Vitó tinha denunciado a morte de mais de 150 aves, que associou à substituição das antigas lâmpadas de vapor de sódio por iluminação LED branca de alta intensidade.
A substituição da iluminação pública por tecnologia LED começou formalmente em fevereiro de 2025, tendo a Brava sido a primeira ilha de Cabo Verde a ter iluminação LED em toda a sua extensão, no inÃcio de 2026.
A modernização da iluminação pública integra a estratégia de transição energética de Cabo Verde e visa aumentar a eficiência energética, num paÃs que pretende atingir 50% de produção de eletricidade a partir de fontes renováveis até 2030.
A Lusa contactou a Empresa de Distribuição de Eletricidade de Cabo Verde (EDEC) para obter esclarecimentos, mas não obteve resposta.
Â
RS // VM
Lusa/Fim



