
São Paulo, 24 nov 2020 (Lusa) — A Organização das Nações Unidas (ONU) denunciou hoje a existência de “racismo estrutural” no Brasil, e pediu uma investigação independente sobre a morte de um homem negro espancado por seguranças brancos num supermercado.
Na quinta-feira, um homem negro de 40 anos foi fazer compras e acabou espancado e morto por dois seguranças brancos numa loja da rede de supermercados francesa Carrefour, na cidade de Porto Alegre, capital do estado brasileiro do Rio Grande do Sul.
Testemunhas contaram que o crime ocorreu após uma briga da vÃtima com funcionários do supermercado, que levaram o homem para fora da loja e o espancaram até à morte.
Tratou-se de “um caso extremo, mas que infelizmente reflete a violência recorrente contra a população negra no Brasil”, avaliou a porta-voz do Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas em Genebra, Ravina Shamdasani.
Racismo estrutural é o termo usado para descrever sociedades estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das outras.
“É uma ilustração da discriminação estrutural e do racismo enfrentados pelas pessoas de origem africana” no Brasil, acrescentou a porta-voz, durante uma conferência de imprensa virtual, lembrando que esta perceção sobre racismo estrutural no paÃs é “apoiada por dados oficiais”.
“O número de afro-brasileiros vÃtimas de homicÃdio é desproporcional quando comparado a qualquer outro grupo”, mencionou a porta-voz da ONU.
O Atlas da Violência, levantamento elaborado a partir de uma parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Instituto de Económica Aplicada (Ipea) que recolhe e analisa números produzidos pelo Governo brasileiro, indicou que em 2018 os negros representaram 75,7% das vÃtimas de todos os homicÃdios praticados no Brasil.
Além disso, Ravina Shamdasani lembrou que “os afro-brasileiros são excluÃdos e praticamente invisÃveis nas instituições e estruturas de tomada de decisão”.
A porta-voz da ONU também pediu que a investigação aberta ao crime deve ser “rápida, minuciosa, independente, imparcial e transparente”, acrescentando que o inquérito deve “verificar se a discriminação racial teve um papel”.
Segundo a representante da ONU, as autoridades brasileiras também deveriam investigar “qualquer denúncia sobre o uso desproporcional da força durante as manifestações antirracistas que ocorreram após a morte de [João] Silveira Freitas”.
Várias manifestações ocorreram no Brasil em frente à s lojas do grupo Carrefour nos últimos dias. Os protestos foram convocados após vÃdeos gravados por testemunhas na hora do crime mostrarem o homem a ser atingido por socos e imobilizado com violência, enquanto outros mostram a tentativa de socorristas para o salvar.
O crime também chocou o Brasil porque ocorreu na véspera de 20 de novembro, data em que se comemora o Dia da Consciência Negra no Brasil.
No sábado, o Presidente do paÃs, Jair Bolsonaro, criticou os movimentos antirracistas, acusando-os durante um discurso na cimeira virtual do G20 de tentarem importar para o Brasil “tensões” que considerou não fazerem parte da história do Brasil.
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