ONG moçambicana pede investigação à ação policial nos protestos de moto-taxistas

Tete, Moçambique, 02 jul 2026 (Lusa) — A Plataforma Decide submeteu hoje uma participação à Procuradoria da cidade moçambicana de Tete, pedindo uma investigação célere e rigorosa à atuação policial durante protestos de moto-taxistas em 16 de junho, que causaram dois mortos.

“O caso ocorrido em Tete exige uma resposta da Procuradoria. O silêncio perante violações dos direitos dos cidadãos apenas alimenta a impunidade”, lê-se numa nota divulgada hoje por aquela Organização Não-Governamental (ONG) moçambicana.

Em causa está a morte de pelo menos duas pessoas e o ferimento de outra, todas baleadas, em 16 de junho, em confrontos violentos entre a Polícia da República de Moçambique (PRM) e manifestantes, na sequência de protestos de moto-taxistas em Tete, província do centro do país, pela operação de fiscalização multissetorial realizada pelas PRM e pela polícia municipal de Tete.

Na participação, endereçada ao procurador-chefe da cidade de Tete, a Plataforma Decide indica que informações preliminares recolhidas no terreno e divulgadas por órgãos de comunicação social apontam que as vítimas mortais não participavam diretamente nos protestos.

Razão pela qual manifesta “fundadas preocupações” quanto ao “eventual uso excessivo e desproporcional da força por parte da polícia por agentes da Polícia da República de Moçambique e a eventual prática de ilícitos criminais contra a vida e integridade física”.

A ONG invoca ainda disposições da Constituição da República de Moçambique e de instrumentos internacionais de direitos humanos, sublinhando que o uso da força deve obedecer aos princípios da necessidade e proporcionalidade.

“O artigo 40 da Constituição da República de Moçambique consagra o direito à vida e à integridade física e moral, estabelecendo que nenhum cidadão pode ser privado arbitrariamente destes direitos [e] o artigo 51 da Constituição da República garante aos cidadãos o direito de reunião e manifestação nos termos da lei”, explica a Decide, no documento.

Na participação, a Plataforma Decide sustenta que, face à “gravidade” dos factos, requereu ao procurador-chefe a realização de uma “investigação célere, independente, rigorosa e imparcial”, bem como a instauração do competente processo sobre os acontecimentos.

A ONG pede também a identificação dos agentes da PRM diretamente envolvidos na operação para efeitos de esclarecimentos e responsabilização, a recolha e preservação dos meios de prova relevantes, incluindo vídeos, fotografias, relatórios operacionais, comunicações de serviço, armas utilizadas e exames balísticos.

A participação inclui ainda pedidos de realização e junção aos autos dos relatórios médico-legais, relatórios clínicos e certidões de óbito das vítimas mortais, a audição das testemunhas presenciais, profissionais de saúde e demais pessoas com conhecimento relevante dos factos, além da determinação das eventuais responsabilidades criminais, disciplinares e/ou civis dos autores materiais e morais dos factos.

A organização solicita igualmente a adoção de medidas de proteção para testemunhas e familiares das vítimas.

Os tumultos interromperam momentaneamente a circulação na Estrada Nacional 7, epicentro das manifestações, enquanto no Hospital Provincial de Tete familiares das vítimas choravam e lamentavam o ocorrido, questionando a atuação da polícia.

“De manhã saiu e disse que voltaria já e depois de uma, duas horas, ouvimos dizer que já está estatelado lá fora, foi atingido com uma bala. Quando fomos ver, atingiram-no na cabeça (…). [A vítima] nem tem nada a ver com isso, nem estava na estrada”, disse no dia do incidente um familiar de uma das vítimas.

A Lusa contactou no mesmo dia o porta-voz da polícia moçambicana em Tete para mais esclarecimentos, mas não obteve resposta.

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