ONG moçambicana denuncia baleamento e atropelamento em protesto sobre capulanas no norte

Nampula, Moçambique, 05 abr 2026 (Lusa) – A plataforma Decide, Organização Não-Governamental (ONG) moçambicana, denunciou que a polícia alvejou a tiro uma cidadã e uma menor foi atropelada durante protestos em reivindicação pela distribuição de capulanas no âmbito do dia da mulher, no norte.

Segundo a ONG moçambicana, a mulher foi atingida a tiro, no sábado, quando as autoridades policiais tentavam travar um protesto de mulheres na localidade de Anchilo, na província de Nampula, norte do país, que colocaram barrigadas ao longo da Estrada Nacional 1 (N1), impedindo a circulação de pessoas e bens, reivindicando a receção de capulanas — tecido estampado tradicional — antes prometidas pela primeira-dama de Moçambique, Gueta Chapo.

A primeira-dama de Moçambique terá prometido, no início de fevereiro, oferecer capulanas a todas as mulheres do país para a celebração de 07 de abril, dia em que se celebra a mulher moçambicana, tendo adiantado na altura que “ninguém” iria ficar de fora do processo de distribuição.

Segundo a plataforma, durante o protesto de mulheres em Nampula, a polícia moçambicana efetuou disparos para dispersar a população, sendo que, no mesmo local, uma menor de 13 anos foi atropelada, mas que já teve alta médica.

“Durante a intervenção policial, uma cidadã foi atingida por disparo de arma de fogo na região do queixo, encontrando-se atualmente a receber cuidados médicos no Hospital Central de Nampula. Adicionalmente, registou-se o atropelamento de uma menor de 13 anos, que, entretanto, teve alta hospitalar e se encontra em processo de recuperação” lê-se no comunicado da Plataforma Decide.

Segundo esta organização, a polícia terá recorrido ao uso de “munições letais” para dispersar a manifestação convocada por mulheres naquela região do país.

“A Plataforma Decide considera que tais factos afiguram-se numa grave violação de direitos humanos, nomeadamente de direito à manifestação e de direito à integridade física. O uso da força potencialmente letal em contextos de protesto civil levanta sérias preocupações quanto à proporcionalidade, legalidade e necessidade da atuação policial”, refere a ONG, indicando ser “inadmissível” a atuação da polícia.

Neste sentido, a Plataforma Decide pediu a abertura de uma investigação “independente e imparcial” face ao ocorrido, incluindo a responsabilização dos envolvidos, além de adoção de medidas para reforçar formação e os protocolos de atuação da polícia durante protestos.

A Lusa contactou a Polícia da República de Moçambique (PRM) na província de Nampula para obter esclarecimentos, mas não obteve reação.

O dia 07 de abril em Moçambique é o feriado que assinala a morte, em 1971, de Josina Machel, a primeira mulher de Samora Machel, primeiro Presidente de Moçambique.

Josina Machel teve um papel importante no envolvimento da mulher na luta contra o regime colonial português, tendo sido uma das fundadoras do Destacamento Feminino da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), além de ter exercido funções de chefe da Secção dos Assuntos Sociais e chefe da Secção da Mulher no Departamento de Relações Exteriores.

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