O controlo do Ébola na RDCongo “ainda está longe” – médica portuguesa

Lisboa 11 out 2026 (Lusa) – A médica portuguesa Rita Magano conhece a realidade na linha da frente do Ébola na República Democrática do Congo (RDCongo), onde doentes chegam tarde aos centros de tratamento, enquanto outros continuam a morrer nas comunidades.

Coordenadora dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Bunia, na província de Ituri, Rita Magano acompanha a gestão clínica no Centro de Tratamento de Ébola (CTE), mas também a vigilância epidemiológica e a resposta junto das comunidades.

A rotina começa cedo, com a passagem de turno para saber quantos doentes estão internados, quais as dificuldades e se existem casos que precisam de ser transferidos. Segue-se o apoio às equipas médicas, a validação de medicamentos, a gestão dos óbitos e dos enterros seguros e dignos, além do acompanhamento das equipas que trabalham nas comunidades.

“Passa um bocado de tudo, às vezes um bocado de bombeiro”, resume, à Lusa, a médica, que também acompanha dois centros de saúde, com apoio em medicamentos e formação para o tratamento de outras doenças.

No CTE, a realidade continua a ser marcada pela chegada de doentes em estado grave. Antes de entrar nas zonas de alto risco é necessário cumprir procedimentos de proteção e planear a intervenção, mas, quando os doentes chegam demasiado tarde, nem sempre é possível fazer alguma coisa.

A morte de um doente não significa, contudo, que a equipa possa parar. “Não é porque se perde uma vida que se vai baixar os braços”, afirma Rita Magano, explicando que outros doentes chegam e é necessário continuar a ter capacidade para lhes prestar os melhores cuidados possíveis.

A médica salienta que o número de mortes registadas nos centros não traduz toda a dimensão do problema. Em Bunia, apesar de uma redução das admissões, “ainda existem muitas pessoas que morrem a nível comunitário”, o que mostra a necessidade de reforçar a resposta fora dos centros de tratamento e em zonas mais isoladas.

Com casos reportados em sete províncias, “ainda é cedo para dizer que a curva começa a descer”, sublinha, apontando a desconfiança e o medo da população como outra das dificuldades no combate ao surto.

“As pessoas continuam a ter medo de ir a um centro de tratamento de Ébola”, conta Rita Magano, defendendo que a resposta passa por esclarecer os rumores e trabalhar com as comunidades.

“Não lhes dizer que elas estão erradas, mas esclarecer os rumores que correm em relação aos centros de tratamento”, explica, considerando essencial envolver líderes comunitários e religiosos, responsáveis pela identificação precoce de casos e pelo corte das cadeias de transmissão.

“Sem que exista uma forte interação e coordenação com a parte comunitária, líderes comunitários, chefes religiosos (…) dificilmente se consegue travar e parar a epidemia”, alerta.

A situação epidemiológica continua, por isso, difícil de interpretar. Embora Ituri e Bunia apresentem sinais de abrandamento em alguns indicadores, outras zonas continuam a registar novos casos.

“É difícil dizer que se está, de facto, a entrar numa fase de estabilidade, e que a curva comece a descer, ainda é cedo para dizer isso”, afirma.

Segundo os dados mais recentes do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), a RDCongo registava, até 04 de outubro, 8.603 casos confirmados e 4.148 mortes, com 896 doentes hospitalizados em isolamento. Ituri continuava a ser a província mais afetada, com 6.450 casos e 2.968 mortes.

A falta de uma vacina para o surto provocado pelo vírus Bundibugyo, faz com que a resposta clínica dependa, ainda mais, do diagnóstico precoce, dos cuidados de suporte e do controlo da transmissão, enquanto decorrem estudos sobre potenciais vacinas e tratamentos.

A vacina contra o Ébola desenvolvida para o vírus Zaire começou entretanto a ser administrada a profissionais da linha da frente, no âmbito do estudo PARTNERS que procura avaliar o seu eventual efeito neste surto.

Rita Magano faz questão de moderar as expectativas, mas a possibilidade de uma “imunidade cruzada” é uma luz ao fundo do túnel: “Não é a vacina específica para este vírus, (…) espera-se que exista alguma imunidade cruzada que permita, pelo menos, reduzir a mortalidade”.

A médica portuguesa considera que a dimensão do surto — com uma mortalidade próxima dos 50% — torna difícil pensar que seja possível reduzir o esforço internacional. E lembra que, além do Ébola, é preciso manter a assistência a doentes com malária, cólera, VIH, tuberculose ou doenças crónicas.

“A grande dificuldade e a grande dor de alma é o facto de ter uma epidemia que continua a afetar uma população muito fragilizada, com um sistema de saúde ainda muito precário, e na qual o fim ainda parece longínquo”, desabafa Rita Magano.

“Ainda está longe” o momento em que será possível dizer que a epidemia está controlada e vai acabar, conclui.

TEYM // MLL

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