“O Beijo no Asfalto” fecha temporada no Teatro Nacional São João com beijo na boca controverso

Porto, 16 jun 2026 (Lusa) — A peça “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues, encenada por Tónan Quito, estreia-se quinta-feira no Teatro Nacional São João, no Porto, com elenco integralmente brasileiro, fechando a temporada com um beijo na boca controverso.

A peça, escrita em 1960 pelo dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, conta a história de um acidente em que um homem é atropelado e, antes de morrer, pede um beijo na boca a um desconhecido, que correra para o salvar.

É esse beijo que vai provocar a reprovação da sociedade carioca dos anos 1960, trazendo à tona o preconceito sexual em torno da homossexualidade, machismo, pedofilia, racismo e até a forma de lavar a honra de uma mulher no século passado, explicou hoje aos jornalistas o encenador Tónan Quito.

“O beijo, a gente não sabe se foi verdade ou não. O Arandir, quando é questionado pela mulher, ‘então, mas foi um beijo na boca’, ele diz que sim, que foi ele [a vítima] que lhe pediu. Portanto, é sempre através de alguém, mesmo que tenha sido a própria pessoa que viveu o acontecimento. Acho que aqui é que é um dos grandes pontos, só um, desta peça, que a nossa verdade pode ser adulterada e pode ser transformada, independentemente [de ter] acontecido ou não. O beijo só acontece porque foi notícia de jornal. E a gente sabe que o Aprígio, que é o genro do Arandir, também estava lá e viu o beijo na boca, mas, segundo o Arandir, foi um beijo que foi pedido pelo próprio moribundo, na hora da morte, depois de ter sido atropelado”, contou o encenador.

De acordo com Tónan Quito, faz sentido trazer a palco assuntos tão atuais como o preconceito sobre homossexualidade, racismo, aborto e desinformação.

No texto, o gesto de “altruísmo, de amor à humanidade” vai ser questionado pela comunicação social e a partir daí “vira toda uma questão no seio de uma sociedade da época completamente preconceituosa e um bocadinho à semelhança da nossa que estamos a viver, e por isso é que este texto faz muito sentido hoje”.

“Todos os homens são completamente misóginos nesta peça, e no fundo temos esta violência social e este preconceito social ao lado desta questão dos ‘media’, das ‘fake news’, que estão de há uns anos para cá muito em moda. Portanto, temos estes vários temas fraturantes da sociedade que estamos a viver hoje em dia, com um novo olhar”, acrescenta.

Questionado sobre a opção por um elenco na íntegra brasileiro, o encenador afirmou que só “fazia sentido com atores e atrizes brasileiras”.

“A defesa da língua portuguesa, eixo programático das nossas produções para esta temporada, também se assume na paixão pelas suas variantes e sotaques. E quem melhor do que Nelson Rodrigues para nos dar a senti-la, tão virtuoso é o seu teatro na utilização direta do idioma vivido. Para ele, ‘O Beijo no Asfalto’ era, acima de tudo, uma inquirição metafísica sobre o problema da morte. Como se vida e morte se enlaçassem, a morte beijada na boca. Lindo beijar quem está morrendo”, lê-se no dossiê de imprensa.

Na interpretação está Allex Miranda, Bárbara Meirelles, Beto Coville, Dai Ida, Gabriel Delfino Marques, Genário Neto, Joyce Souza, Julia Prado, Luciano Luz, e com uma participação especial de Santa Barba (Paulo Pinto).

A cenografia ficou a cargo de José Capela, o desenho de luz é da responsabilidade de Daniel Worm d’Assumpção e o desenho de som tem a assinatura de Francisco Leal.

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