Netanyahu insiste que Gaza não será reconstruída até que Hamas seja desarmado

Jerusalém, Israel, 27 ago 2026 (Lusa) — O Governo israelita afastou hoje planos para reabrir a passagem de Erez, na fronteira com a Faixa de Gaza, que condiciona ao desarmamento completo do grupo islamita Hamas, tal como o início da reconstrução do enclave palestiniano.

“A política de Israel em Gaza é clara e não mudou: não haverá reconstrução antes de a organização terrorista Hamas ser desarmada e de ocorrer a completa desmilitarização da Faixa”, afirmaram o chefe do Governo, Benjamin Netanyahu, e o ministro da Defesa, Israel Katz, numa breve declaração conjunta.

No texto divulgado pelo gabinete do primeiro-ministro, os governantes israelitas disseram que “não existe nenhuma diretiva para proceder à abertura da passagem de Erez e facilitar a entrada de mercadorias na área”, refutando deste modo notícias recentes que indicavam uma reabertura em breve.

Esta passagem fronteiriça foi encerrada há quase três anos, após o início da guerra no território, tendo sido apenas reaberta por alguns dias em 2024 para permitir a entrega de ajuda humanitária.

Noutro comunicado, o ministro da Defesa israelita avisou hoje o Hamas de que qualquer lançamento de papagaios ou balões da Faixa de Gaza em direção a Israel será considerado um “ato terrorista”, no seguimento de vários objetos voadores que aterraram em zonas fronteiriças nos últimos dias e, que, embora frágeis e desprovidos de explosivos, Telavive vê como uma ameaça.

“O ultimato que emitimos após o lançamento de balões e papagaios da Faixa de Gaza em direção a comunidades no [deserto de] Negev chegou ao fim. Deixámos claro que, da nossa perspetiva, qualquer lançamento é um ato terrorista em todos os sentidos da palavra, e é assim que o trataremos”, avisou Katz, após uma reunião com o chefe do exército, Eyal Zamir.

No fim de semana, o ministro da Defesa já tinha ameaçado responder aos papagaios com ataques e evacuações das zonas de lançamento.

As autoridades israelitas detetaram a chegada de pelo menos quatro papagaios provenientes da Faixa de Gaza ao ‘Kibutz’ Nahal Oz, comunidade fronteiriça atingida pelos ataques liderados pelo Hamas em 07 de outubro de 2023 e que cinco anos antes já tinha testemunhado engenhos incendiários lançados a partir do território palestiniano.

Em resposta, o porta-voz do Hamas, Hazem Qasem, atribuiu os papagaios a “brinquedos de crianças” do enclave palestiniano, “em busca da sua infância inocente no meio dos escombros”.

Segundo o porta-voz, Israel pretende utilizar os papagaios para “justificar a contínua agressão e as violações dos direitos humanos” contra o povo palestiniano, chegando ao ponto de “ameaçar crianças na Faixa de Gaza”.

Nesse sentido, instou os Estados Unidos, os restantes países mediadores do conflito e o Conselho de Segurança da ONU a pressionarem Israel para que cesse esta “escalada de agressão” e deixe de violar o cessar-fogo e com o qual “o lado palestiniano está totalmente comprometido”.

Apesar da trégua, as partes acusam-se mutuamente de violações nos últimos meses, durante os quais as autoridades da Faixa de Gaza, controladas pelo Hamas, contabilizaram mais de 1.200 mortos em ataques israelitas.

O alto-representante do Conselho da Paz para a Faixa de Gaza alertou na quarta-feira perante o Conselho de Segurança da ONU para um “ponto de não retorno” em caso de falhanço no roteiro para a próxima fase do cessar-fogo, proposto por este órgão criado pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, com respaldo das Nações Unidas.

“Cada recurso à força que não é uma resposta a uma ameaça iminente e cada incidente para o qual o mecanismo de coordenação não foi consultado, custam a este processo alguma coisa que será muito difícil de recuperar”, declarou Nikolai Mladenov perante o Conselho de Segurança, referindo-se aos ataques israelitas, mas deixando também críticas ao Hamas.

“Cada arma ainda carregada, cada túnel cuja construção continua e cada coluna cuja passagem é impedida faz recuar o processo e fornece um argumento àqueles que querem retomar a guerra”, defendeu o diplomata búlgaro.

A segunda fase do roteiro de paz prevê o desarmamento das milícias palestinianas, a retirada gradual de Israel e a criação de um órgão tecnocrático palestiniano, a par do destacamento de uma força internacional de estabilização.

Israel, que mantém mais de 60% do território sob controlo militar, rejeitou porém a proposta do Conselho da Paz até à conclusão total do desarmamento do Hamas, que pelo seu lado já a tinha aceitado.

A guerra no enclave foi desencadeada pelos ataques liderados pelo Hamas em 07 de outubro de 2023 no sul de Israel, nos quais morreram cerca de 1.200 pessoas e 251 foram feitas reféns.

Em retaliação, Israel lançou uma operação militar em grande escala no enclave, que provocou mais de 73 mil mortos, segundo as autoridades locais, um desastre humanitário, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação de centenas de milhares de pessoas.

 

HB (ANC) // SCA

Lusa/Fim