
Maputo, 29 set 2025 (Lusa) – Três anos depois do fim da obrigatoriedade do uso de máscaras em Moçambique, dezenas ainda fazem do Hospital Central de Maputo (HCM) local de negócio, alimentando sonhos e famílias, mesmo oferecendo-as a quem não tem como pagar.
“Fazemos questão, sim. Porque lá é hospital, não é festa. Nós estamos a vender só por causa da vida”, diz à agência Lusa Momade Agi, 35 anos.
Natural de Nampula, no norte do país, desde 2024 que é um dos vendedores de máscaras faciais no perímetro do HCM, negócio informal que tira partido da obrigatoriedade dessa proteção, ainda em vigor, no acesso às unidades de saúde.
Estes vendedores chegam cedo, ainda antes do sol nascer, organizam-se por turnos nos melhores locais à volta do maior hospital do país. O desembarque dos transportes públicos é o local mais procurado, e uma máscara custa cinco a dez meticais (cerca de dez cêntimos), procuradas por doentes e acompanhantes.
No caso de Momade, entrou no negócio para sustentar a filha, a irmã e a mãe, em Nampula: “Para evitar muitas coisas, como roubar”.
Com a venda das máscaras, cujas caixas compra na baixa da cidade, consegue “alguma coisa”, concentrando-se no HCM para ali as revender com lucro, o mesmo que envia para a família.
“Isso aí consigo, não falha, semanalmente. Faço 500 [6,50 euros] por sábado. Dá para fazer alguma coisa”, conta, satisfeito, assumindo ainda uma tarefa na prevenção das doenças, com as máscaras prontas à entrada do hospital.
“Não é só para o corona [covid-19] (…), tem que se usar máscara, evitar doenças”, diz, garantindo viver apenas deste negócio.
“Até às 19:00 já bati uma embalagem [caixas de 100 máscaras]. Porque há pessoas que vêm comprar dez máscaras, cinco, depende da família que traz”, explica, reconhecendo que a sexta-feira é “dia forte” no negócio.
“Consigo arrendar [casa] e comer (…), graças às máscaras, não tenho outra atividade. Não posso mentir. Vivo nisto”, desabafa, enquanto a boca foge para o sonho: Ser cantor.
Entre a venda das máscaras, improvisa uma música e até tem preparada a primeira “demo” que quer gravar, com o dinheiro do negócio.
“Vou vender máscaras até conseguir, vou juntar dinheiro”, diz.
A poucos metros, Sábado Teixeira Paulino, 49 anos, pasteleiro de profissão, vai percorrendo as laterais do HCM, onde chegou pouco depois das 09:00. Ao fim de duas horas já conta 220 meticais (três euros) em máscaras vendidas. Uma ajuda para a comida e para o transporte para ir trabalhar, o resto do dia, na pastelaria, onde quase ficou sem emprego no início do ano, na violência pós-eleitoral em Moçambique.
“A empresa quase fechou. Não tinha como poder funcionar. Mas tenho família para alimentar”, começa por explicar.
Entrou no negócio depois de a pastelaria fechar temporariamente no final de janeiro. Valeu-lhe a ajuda de um primo que já vendia máscaras e mesmo depois de retomar o trabalho em junho, antes ou depois de entrar ao serviço na pastelaria, e mesmo nas folgas, o segundo trabalho passou a ser vender máscaras, a pensar nas três filhas em casa.
“No domingo que tenho folga, estou aqui. Não tenho descanso”, diz.
Entrar no negócio, recorda, não foi fácil, até porque ‘girou’ pela cidade à procura de local para vender, mas os melhores já estavam ocupados. Sem falar do hospital, o mais concorrido.
“Quando eu chegava já tinha ‘donos’, que não me permitiam vender”, explica.
Hoje, instalado fora do hospital, diz que “vale a pena” e até fazem escalas para as entradas do hospital, por dia e pelas horas mais concorridas. Mesmo que se tenha de oferecer uma ou outra máscara a quem chega sem dinheiro.
“Sou ser humano. Não tem [dinheiro] no momento, vou dar. Amanhã há de reconhecer”, aponta, contando que também ganhou clientes com o gesto.
Chega a vender mais de 70 máscaras e a faturar 700 meticais (9,30 euros) quando é dia de estar “na escala” da paragem do HCM: É o principal ponto de venda, onde “descem os pacientes de várias localidades” para consultas e tratamentos.
“Criou-se esta escala para que todos os que estão a vender mascáras consigam mais dinheiro”, detalha.
À volta do hospital os preços estão tabelados pelos próprios. Cada embalagem de 50 máscaras simples custa-lhes 150 meticais (dois euros) e pode render 500 meticais, enquanto as mais baratas custam 100 meticais (1,30 euros), sendo vendidas a cinco meticais cada, tal como as infantis.
O Governo moçambicano anunciou em 31 de agosto de 2022 o fim da obrigatoriedade generalizada de uso de máscaras para prevenção da covid-19, com exceção em espaços de saúde, regra que ainda hoje é cumprida.
Benilde Cuna, 18 anos, aceita as regras e pagou os 10 meticais pela máscara, que necessitava para entrar no hospital.
“Depois da pandemia as coisas tiveram que mudar”, diz, antes de colocar a máscara, que sempre compra a quem ali vende.
“É muito bom, porque além de serem obrigatórios, é mais para nos proteger, a nossa saúde”, diz, enquanto João René Nicapévio agradece.
Este vendedor, de 44 anos, trocou a província da Zambézia, centro do país, por Maputo, onde é segurança desde 2008. Desde a “segunda semana” da covid-19 que João juntou, nas folgas, o ‘biscate’ de vender máscaras, inicialmente junto a um mercado. Mudou-se depois para o HCM e ainda hoje consegue vender por dia 80 a 100 máscaras.
“Consigo me aliviar durante o dia. Quando venho, consigo vender para os pacientes e apanhar o pão”, afirma, assumindo que com as máscaras consegue até sustentar a família, de quatro filhos e a mulher.
“E comprar caneta para as crianças, assim como os cadernos”, diz.
E numa espécie de pacto entre todos os vendedores, confirma que não é por não ter dinheiro que o doente fica sem a máscara para entrar no hospital: “Nós conseguimos dar uma mão. Conseguimos oferecer a máscara e amanhã também voltam a nos agradecer”.
Faustino Simango, 70 anos, fotógrafo reformado, não precisou dessa ajuda e fez questão de comprar a máscara, como o faz a cada sexta-feira, quando vai receber o tratamento de um ferimento no pé de quando foi militar.
“Não está em falta, em todo o redor do hospital tem máscara. A venda, sim, para nós, que é muito bom”, afirma, reconhecendo que nunca deixa de usar a máscara no interior: “Para nos proteger das doenças que tem aqui”.
PVJ // VM
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