
Paris, 11 fev 2026 (Lusa) – Gisèle Pelicot, cujo ex-marido foi condenado por propor a 50 homens a sua violação depois de a drogar, revela num livro porque recusou um julgamento à porta fechada: “Não queria ficar refém do olhar deles”.
“À medida que o julgamento se aproximava, imaginava-me refém dos seus olhares, das suas mentiras, da sua cobardia e do seu desprezo”, afirma a mulher de 73 anos que se tornou um símbolo da luta feminista, no seu livro “Et la joie de vivre” (“E a alegria de viver”, em tradução livre), que será publicado a 17 de fevereiro em França, um ano e meio após a condenação do ex-marido, e do qual o diário Le Monde divulgou alguns excertos.
A decisão de Pelicot de que o julgamento não se realizasse à porta fechada, como o tribunal tinha proposto, foi considerada um sinal de coragem, que ela fundamentou afirmando “A vergonha tem mudar de lado”, subtítulo do seu livro, escrito com a jornalista e romancista Judith Perrignon.
Pelicot conta que pensou que “50 homens seriam uma multidão” e que as suas vozes se sobreporiam à sua, imaginou “os olhares de todos eles, os ombros pressionados uns contra os outros, a formar como que uma parede”.
Perante essa imagem, questionou-se se um julgamento à porta fechada não seria “um presente” para eles: “Não estaria a protegê-los ao fechar a porta?”.
“Ninguém saberia o que me tinham feito. Nenhum jornalista estaria ali para escrever os seus nomes ao lado dos seus crimes. Nenhum estranho viria olhá-los nos olhos, perguntando-se como se reconhece um violador entre os seus vizinhos e colegas. E, acima de tudo, nenhuma mulher poderia sentar-se na sala para se sentir menos só”, escreve a vítima, acrescentando: “Se eu não me apercebi de nada, de certeza que isto deve ter acontecido a outras”.
No livro, Pelicot reconhece que talvez não tivesse tomado a mesma decisão se tivesse menos 20 anos, mas, aos 73, afiança que já não tem medo do olhar público.
Relata ainda o momento em que um comissário da polícia a intimou, em novembro de 2020. Pensou que fosse por causa de uma acusação contra o marido, que tinha sido apanhado a tirar fotografias por baixo da saia de uma jovem, algo que lhe tinha confessado e que ela perdoara sob a condição de ele consultar um psicólogo.
Até que o investigador lhe mostrou algumas fotos apreendidas ao marido, excertos das gravações vídeo que fez das violações que planeou.
“Não conhecia os homens. Nem aquela mulher. A cara dela estava tão descaída. A boca tão flácida. Parecia uma boneca de trapos”, conta Gisèle Pelicot, que não acreditou nas palavras do polícia quando este lhe garantiu que era ela.
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