Nações Unidas defendem perdão de dívida e juros indexados ao crescimento

Nova Iorque, 12 out 2022 (Lusa) – O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) defendeu hoje novos instrumentos para aliviar os países mais vulneráveis do peso da dívida, incluindo juros indexados às taxas de crescimento económico dos países e um perdão de dívida.

“Para evitar uma repetição das crises de dívida anteriores e uma nova ‘década perdida’, as reestruturações de dívida não devem dar prioridade à extensão da maturidade da dívida e reduções nas taxas de juro, sobre um perdão de dívida [‘write-down’, no original em inglês] se e quando a Análise da Sustentabilidade da Dívida sugerir que estes perdões são necessários para restaurar a sustentabilidade”, escreve o economista Lars Jensen, do PNUD.

Num estudo hoje divulgado, com o título “Evitar o ‘muito pouco, muito tarde’ no alívio internacional da dívida”, e lançado a tempo de ser debatidos nos Encontros Anuais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, esta semana, em Washington, o PNUD defende um conjunto de novos instrumentos para evitar uma crise da dívida que afeta principalmente os países africanos, incluindo os lusófonos Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Moçambique, que figuram na lista dos 54 países com maior vulnerabilidade à dívida.

“As grandes crises da dívida nos anos 80 e 90 só foram resolvidas quando o foco mudou finalmente para o alívio da dívida através de ‘write-downs’, primeiro com o Plano Brady e depois com a Iniciativa dos Países Pobres Altamente Endividados [HIPC, na sigla em inglês”, aponta-se no relatório, que diz que é preciso reformular o Enquadramento Comum (CF) para o tratamento da dívida para além da Iniciativa para a Suspensão do Serviço da Dívida (DSSI), patrocinada em abril de 2020 pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Clube de Paris e pelo G20 e que previa um adiamento nos pagamentos de dívida para libertar espaço para financiar o combate à pandemia de covid-19.

“O CF, na sua atual forma, não garantiu reestruturações de dívida atempadas e eficazes”, essencialmente porque os credores privados não participaram na iniciativa e, por outro lado, apenas três países (Zâmbia, Etiópia e Chade) aderiram a esta medida que prometia um alívio da dívida e um novo caminho para a recuperação financeira destes países altamente endividados.

Para além do perdão de dívida, o PNUD diz também que os principais credores da dívida, nomeadamente o Clube de Paris e a China, têm de trabalhar em conjunto, e que os credores e devedores têm de se comprometer com uma “transparência total sobre o montante e termos da dívida”.

Entre as principais propostas, o PNUD aponta a expansão da elegibilidade do CF para cobrir todos os países endividados e a suspensão do pagamento do serviço da dívida durante o tratamento, a garantia de que as Análises de Sustentabilidade da Dívida são baseadas em assunções realistas (o que não tem acontecido desde o princípio dos anos 2000), a análise cuidada das especificidades políticas e económicas de cada país e a implementação de acordos de dívida que levem em conta a evolução do desenvolvimento do país.

“A nível global, há agora uma multiplicidade de atores que defendem propostas de dívida em troca de desenvolvimento [DFD], muitas relacionadas com o clima, a natureza e o ambiente”, nota Lars Jensen, salientando que “a ideia é que os credores concordem com um perdão de dívida em troca de promessas de que o montante poupado é gasto na conservação da natureza, ou em investimentos em adaptação climática, por exemplo”.

Estes instrumentos de dívida condicionados à evolução económica de um país (SCDI, na sigla em inglês) têm muitos benefícios teóricos, argumenta-se no estudo, que diz que são “especialmente benéficos para os países que sofrem de choques externos frequentes, mas a aplicação e mercado para estes instrumentos tem sido lenta a desenvolver-se”.

A perspetiva sobre a evolução das reestruturações da dívida, a elevada incerteza económica e um futuro com cada vez mais choques climáticos faz com que agora seja um bom momento para o setor oficial apoiar a adoção de SCDI, por exemplo incluindo cláusulas de SCDI nas reestruturações de dívida com o setor oficial, argumenta o autor, concluindo que “idealmente, a adoção deste instrumento daria um alívio de dívida automático e não teria, por isso, implicações negativas no rating”, que é uma das principais razões para só haver três países que aderiram ao CF.

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