
Rangum, Myanmar, 09 fev 2021 (Lusa) — A ONU condenou hoje o uso “desproporcionado” da força contra os manifestantes que contestam o recente golpe militar em Myanmar, denunciando a existência de “feridos graves”, após a utilização de balas de borracha e de gás lacrimogéneo pela polÃcia.
“O uso de força desproporcionada contra manifestantes é inaceitável”, afirmou o coordenador residente da Organização das Nações Unidas (ONU) em Myanmar (antiga Birmânia), Ola Almgren, num comunicado.
“Muitos manifestantes ficaram feridos, alguns com gravidade”, acrescentou o representante, após a recolha de vários testemunhos em várias cidades do território birmanês.
Neste momento, e segundo refere a agência noticiosa France-Presse (AFP), não é possÃvel obter uma estimativa do número de feridos junto dos hospitais locais.
No passado dia 01 de fevereiro, o exército prendeu a chefe do governo civil birmanês, Aung San Suu Kyi, o Presidente Win Myint e vários ministros e dirigentes do partido governamental, proclamando o estado de emergência e colocando no poder um grupo de generais.
União Europeia (UE), Estados Unidos, ONU, Japão, China, França e Reino Unido foram algumas das vozes internacionais que criticaram de imediato o golpe de Estado promovido pelos militares em Myanmar.
Nos dias seguintes, sucessivos protestos contra o golpe de Estado ocorreram em várias cidades de Myanmar e a tensão nas ruas tem vindo a aumentar, incluindo nesta terça-feira.
Em Naypyidaw, cidade construÃda para ser a capital do paÃs, “a polÃcia disparou balas de borracha contra os manifestantes”, segundo um testemunho de uma habitante, citada pela AFP.
“Atiraram contra o meu filho quando ele tentava usar um megafone para pedir à s pessoas que se manifestassem pacificamente”, disse, por sua vez, Tun Wai, um ourives de 56 anos de idade, que admitiu estar “muito preocupado”.
Antes, e de acordo com a AFP, as forças policiais tinham recorrido a canhões de água para dispersar um pequeno grupo de manifestantes que se recusava a afastar de um bloqueio de estrada imposto pela polÃcia.
Já em Mandalay (centro), a segunda maior cidade do paÃs, a polÃcia lançou gás lacrimogéneo “contra manifestantes que agitavam bandeiras da Liga Nacional para a Democracia (NLD, na sigla em inglês)”, o partido de Aung San Suu Kyi.
Na segunda-feira, a Junta Militar birmanesa, que tomou o poder no dia 01 de fevereiro, decretou a lei marcial, após os sucessivos protestos e uma greve geral em curso, que está a paralisar o paÃs.
Os militares declararam a lei marcial em pelo menos seis localidades, impondo o recolher obrigatório e proibindo reuniões com mais de cinco pessoas, bem como discursos públicos.
A medida, que afeta vários distritos de Rangum, a maior cidade e o centro económico do paÃs, entrou também em vigor nas regiões de Mandalay, Monywa, Loikaw, Hpsaung e Myaungmya.
Desafiando as regras impostas, os manifestantes anti-golpe de Estado regressaram hoje uma vez mais às ruas birmanesas, mas, segundo a AFP, em número menos expressivo em comparação a outros dias.
Em Rangum, os manifestantes concentraram-se perto da sede do NLD.
“Sem ditadura!”, “Queremos a nossa lÃder!”, gritavam os manifestantes, numa referência a Aung San Suu Kyi, mantida em local desconhecido desde a sua detenção no passado dia 01 de fevereiro.
O Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas tem agendada para sexta-feira uma sessão especial para abordar a situação em Myanmar, a pedido do Reino Unido e da UE, e com o apoio de pelo menos 47 paÃses.
Por sua vez, o Conselho de Segurança da ONU apelou à libertação imediata dos representantes detidos pelos militares.
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