
Rangum, 06 abr 2021 (Lusa) — Os manifestantes birmaneses que contestam o golpe de Estado de 01 de fevereiro deitaram hoje tinta vermelha nas ruas num ato que visa representar o sangue derramado pela violência das forças leais à junta militar.
Cerca de 570 civis – incluindo 50 crianças e adolescentes – foram mortos em pouco mais de dois meses pela violência da repressão do movimento de desobediência civil, de acordo com a Associação de Assistência a Presos PolÃticos.
O número de vÃtimas pode, no entanto, ser muito mais elevado, já que foram detidas mais de 2.700 pessoas, muitas das quais são consideradas desaparecidas.
Apesar disto, a mobilização pró-democracia não está a enfraquecer, continuando a ser organizadas manifestações diárias e estando milhares de trabalhadores em greve e setores inteiros da economia paralisados.
Para escaparem de represálias e continuarem a ser ouvidos, os manifestantes têm encontrado novas soluções todos os dias, tendo sido pedido à população que hoje derramasse tinta vermelha no chão para evocar o sangue dos “mártires que caÃram pelas balas” do exército e da polÃcia.
Em Hpa-An, capital do estado de Karen (sul), os opositores do golpe de Estado espalharam a tinta numa estrada, antes de homenagear as vÃtimas, mostrando três dedos em sinal de resistência.
“Não matem civis por salários tão miseráveis como o preço da comida para cães”, escreveu um manifestante em letras vermelhas numa paragem de autocarro de Rangum.
Outros molharam pedaços de tecido na tinta e atiraram-nos par as ruas da capital económica do paÃs.
Um cibernauta publicou uma imagem em que se vê uma mesa coberta de vermelho, instando a ONU a “ir em auxÃlio” ao paÃs.
A repressão das autoridades também se mantém, tendo hoje sido detido o comediante mais conhecido do paÃs.
Conhecido também pelo seu trabalho social, nomeadamente através de ajuda à s vÃtimas do ciclone Nargis em 2008, o comediante Zarganar foi levado de sua casa, em Rangum, por polÃcias e militares que chegaram em dois veÃculos do exército, contou o comediante Ngepyawkyaw na sua página de Facebook.
Zarganar, de 60 anos, é um satirista de lÃngua afiada que tem entrado e saÃdo frequentemente da prisão desde que participou num protesto popular em 1988 contra a anterior ditadura militar.
Na semana passada, a junta militar emitiu mandados de prisão para pelo menos 60 pessoas das áreas de literatura, cinema, artes teatrais, música e jornalismo, sob a acusação de divulgarem informações que prejudicam a estabilidade do paÃs e o Estado de Direito. Não ficou claro se Zarganar, cujo nome verdadeiro é Maung Thura, foi acusado.
Muitos manifestantes e ativistas comuns também são presos todos os dias, de acordo com inúmeros relatos nas redes sociais.
Em Mandalay, a segunda maior cidade do paÃs, as forças de segurança usaram granadas de atordoamento e dispararam armas para interromper uma manifestação de profissionais da área médica.
Um participante, que pediu para permanecer anónimo para sua própria segurança, disse à Associated Press que médicos, enfermeiras e estudantes de medicina foram atacados quando se reuniam, cerca das 05:00 locais, tendo as forças de segurança usado carros para atropelar manifestantes em motos.
O site de notÃcias online The Irrawaddy relatou que quatro médicos foram presos.
Os ativistas começaram a organizar um boicote à celebração oficial do Ano Novo do paÃs (o Thingyan), que se comemora na próxima semana e é habitualmente um momento de reuniões familiares e festejos.
Panfletos espalhados pelas cidades e mensagens divulgadas nas redes sociais pedem à s pessoas para não realizarem nenhuma celebração, alegando que isso seria desrespeitoso para com os “mártires caÃdos”.
Entretanto, os lÃderes do Brunei e da Malásia anunciaram na segunda-feira que os lÃderes da Associação das Nações do Sudeste Asiático vão reunir-se para discutir a situação em Myanmar, sem, no entanto, avançar uma data.
O Presidente da Indonésia, Joko Widido, já tinha proposto, no mês passado, a realização de uma cimeira sobre a situação no paÃs, mas não avançou com nenhuma confirmação da presença pessoal ou por vÃdeo de lÃderes da ASEAN ou mesmo de Myanmar.
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