
Lisboa, 24 out 2026 (Lusa) – Aos 80 anos, Alceu Valença mantém a vontade de subir ao palco, compor sem obedecer às regras do mercado e cruzar as raízes pernambucanas com a herança portuguesa, numa liberdade criativa que atravessa a digressão “80 Girassóis”.
“O palco é alegria, o palco é vitalidade e o palco para mim é vitamina”, afirma o músico brasileiro, em entrevista à Lusa, na sala da sua casa no Castelo de São Jorge, em Lisboa, já depois da habitual caminhada em que sobe e desce as ruas da capital portuguesa para os 10 mil passos que cumpre “todos os dias”.
A formação atlética vem à baila, recordando os tempos em que jogou basquetebol pela seleção pernambucana, contrariando a estatura mais baixa com agilidade e “muita rapidez”. Tinha então 12 anos e vivia no Agreste, em São Bento do Una, onde era conhecido como o “doidinho de Dona Adelma”, alcunha de infância, que já antecipava a energia do pequeno Alceu, a quem Dona Adelma, sua mãe, ofereceu o primeiro violão, às escondidas do pai.
“O meu pai não queria nem comprar radiola com medo que eu virasse um cantor, e por um certo trauma, porque o irmão dele, tio Reinaldo, era muito bom e tentou uma carreira artística, deu errado, e aí ele não queria o filho dele nessa situação”, explicou.
Formado em Direito, no Recife, por desejo paterno, fez da mudança a lei da sua vida e na década de 1960 seguiu a vocação artística: “está dentro da minha alma, está dentro do meu espírito, deixei tudo para poder fazer música, que é a coisa que eu gosto”, recorda.
A identidade musical que construiu não cabe numa só categoria.
“Eu posso cantar um frevo de bloco, um frevo de rua, a gente tem uma mistura muito grande no Brasil, por exemplo, o maracatu tem raízes totalmente africanas, o caboclinho tem raízes dos povos originários e isso tudo eu absorvi de maneira absolutamente natural”, explicou.
“Não tenho caixinha nenhuma, eu faço o que eu faço, do jeito que eu faço”, resume.
A mistura acompanha também a forma como o artista entende a sua própria identidade, marcada por diferentes heranças culturais.
“Respeito todo o tipo de manifestação cultural, mas eu sou ibérico, eu sou português, eu sou africano, sou indígena, mas eu sou espanhol também, eu sou mourisco”, diz.
A liberdade criativa continua a ser uma condição essencial para o cantor e compositor que completou 80 anos em julho, e que celebra a data com “80 Girassóis”, espetáculo que revisita diferentes fases da carreira, das décadas de 1970 e 1980 até à atualidade.
O repertório inclui temas emblemáticos como “Anunciação”, “Belle de Jour”, e “Tropicana”, num alinhamento que Alceu Valença descreve como “cinematográfico”, antecipando algumas projeções que vão surgir no palco.
Mais do que uma sucessão de canções, o alinhamento constrói um percurso pela sua história musical. “É uma viagem para mim”, diz.
Entre as referências que o acompanham desde a juventude está Luiz Gonzaga, figura que considera próxima da sua própria experiência por partilharem a cultura do Agreste e do sertão.
A digressão, que já passou por várias cidades brasileiras, percorre oito países e 11 cidades europeias. Em Portugal, Alceu Valença atua em 30 de outubro no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 31 de outubro no Convento São Francisco, em Coimbra, e em 01 de novembro no Coliseu do Porto.
A ligação a Portugal tem também raízes familiares. Monteiro, Paiva, Alves, Rodrigues, Almeida e Oliveira são alguns dos apelidos portugueses presentes na família, oriunda de Valença do Minho, cidade raiana que ainda não conhece.
Já Lisboa, que visitou em 1979 pela primeira vez, depois de ter vivido em Paris, foi amor à primeira vista.
Aos 80 anos, Alceu Valença continua a encontrar na interação com o público uma energia que resiste ao cansaço das viagens. É no palco que, diz, recupera a vitalidade — e onde a música permanece uma escolha de vida.
“Tem hora que você fica cansado, mas quando chega no palco eu me levanto todinho, aí fico com uma vitalidade terrível, maravilhosa” conclui.
TEYM // VM
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