
Telavive, 14 fev 2024 (Lusa) — Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciaram hoje a suspensão de parte das suas operações num dos maiores hospitais ainda em funcionamento na Faixa de Gaza, após doentes e funcionários terem relatado a presença de homens armados e encapuzados.
Num comunicado publicado no portal da organização humanitária, os MSF informaram que todas as atividades médicas não críticas no Hospital Nasser foram suspensas devido a “falhas de segurança”, referindo que a presença de homens armados representam “ameaças graves à segurança das equipas médicas e dos doentes”.
O Hospital Nasser, na cidade de Khan Younis, é um dos poucos ainda operacionais no enclave. Centenas de doentes e feridos de guerra foram ali tratados, e a unidade serviu também de ponto de acolhimento para prisioneiros palestinianos libertados por Israel em troca de reféns israelitas, no âmbito do acordo de cessar-fogo.
Os MSF explicaram que tomaram a “difícil decisão” após um aumento de relatos de doentes e funcionários que avistaram homens armados em áreas do complexo hospitalar desde a entrada em vigor do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, em outubro.
“As equipas dos MSF relataram um padrão de atos inaceitáveis, incluindo a presença de homens armados, intimidação, detenções arbitrárias de doentes e uma situação recente de suspeita de movimentação de armas”, refere o comunicado.
Por esclarecer está quem são os homens armados, pois os MSF afirmaram não estarem em condições de o especificar.
Os grupos armados multiplicaram-se em Gaza na sequência da guerra, incluindo vários apoiados pelo exército israelita na parte do enclave sob controlo de Israel.
Funcionários do Hospital Nasser afirmam que, nos últimos meses, a unidade foi repetidamente atacada por membros de tribos armadas e milícias, apesar da presença policial no local.
A organização indicou ter manifestado preocupação junto das autoridades competentes, sublinhando que os hospitais devem permanecer espaços civis e neutros.
Os MSF acrescentaram que as suas preocupações foram também agravadas por anteriores ataques deliberados de Israel contra instalações de saúde durante o conflito.
Ao longo da guerra, Israel atacou hospitais em diversas ocasiões, incluindo o Hospital Nasser, acusando o Hamas de operar no seu interior ou nas imediações. Elementos de segurança do Hamas foram igualmente vistos com frequência dentro de hospitais, bloqueando o acesso a determinadas áreas.
Alguns dos reféns libertados de Gaza afirmaram ter permanecido em hospitais durante o período de cativeiro.
O Ministério do Interior controlado pelo Hamas, que supervisiona a força policial em Gaza, anunciou hoje que a polícia será destacada para garantir a segurança dos hospitais e eliminar a presença de homens armados, indicando que instaurará processos judiciais contra os infratores e que está a implementar medidas mais rigorosas para assegurar a segurança dos doentes.
Embora o direito internacional confira aos hospitais proteção especial em tempo de guerra, estas unidades podem perder essa imunidade se combatentes as utilizarem para esconder combatentes ou armazenar armas, segundo o Comité Internacional da Cruz Vermelha.
Ainda assim, deve haver aviso prévio suficiente que permita a evacuação de profissionais de saúde e doentes antes de qualquer operação. Se os danos causados a civis por um ataque forem desproporcionais face ao objetivo militar, tal constitui uma violação do direito internacional.
Organizações humanitárias e de defesa dos direitos humanos afirmam que Israel devastou o sistema de saúde de Gaza, forçando o encerramento da maioria dos hospitais e causando graves danos a outros. Durante o conflito, as forças israelitas realizaram incursões em vários hospitais e atacaram outros, detendo centenas de profissionais de saúde.
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