
Amadora, Lisboa, 01 jun 2026 (Lusa) — Os moradores do antigo bairro de Santa Filomena, no concelho da Amadora, temem que a operação em curso, que a câmara municipal diz ser de limpeza, inclua a demolição de habitações precárias e garantem não ter sido avisados.
Simão Lopes Fernandes anda pelo bairro desde 1998, mas chegou “atrasado” ao processo de realojamento aberto aquando da extinção do bairro de Santa Filomena, em 2016.
O nome por que a zona é mais conhecida mantém-se o mesmo, mas o oficial é agora Estrada Militar, na freguesia de Mina de Água, e é ali que Simão habita “há seis, sete anos” uma construção precária, onde recebe a Lusa.
“Ninguém fala nada”, disse, preocupado com as retroescavadoras trazidas logo de manhã pelos serviços da câmara, levando o movimento Vida Justa a alertar a comunicação social.
“Não colocaram nenhum aviso [aos moradores]”, garante Simão, contando que foi abordado pela polícia municipal, à qual confirmou que mora ali.
“Disseram que em princípio (…) ainda hoje vai abaixo, não sei se da parte da tarde ou amanhã (…). Disseram que tenho que arrumar [as coisas], para tirar qualquer coisa que [me] pertence, porque isso vai abaixo”, relatou.
Simão “ainda não” tem para onde ir, mas sabe que pode ter de se “fazer às vida” e, por isso, já embalou “uma maleta de roupa” que pôs no carro, estacionado mais acima.
Antes de se deslocar ao local, a Lusa falou ao telefone com Francisca, uma mulher cabo-verdiana que está a receber tratamentos de saúde em Portugal e que também reside numa construção precária no bairro.
“Ainda não chegaram à minha casa, mas estão a tirar tudo”, relatou, preocupada, contando que um agente policial lhe disse que tinha que escolher, ficar a guardar a casa ou ir ao médico.
“Estamos na ignorância, porque a câmara não afixou nenhum edital, não deu nenhum aviso, portanto as pessoas foram apanhadas de surpresa”, corroborou a advogada Catarina Morais.
Em declarações no terreno, ao qual se deslocou para acompanhar a intervenção em curso, depois de contactada por alguns dos moradores que representa, Catarina Morais disse ter apurado que pelo menos “dois senhores (…) ficaram sem habitação porque viviam nas casas que construíram para dar apoio às hortas”.
Isso mesmo transmitiu ao comandante da polícia municipal, que foi ter consigo para enquadrar a operação em curso, sublinhando que o fim exclusivo é a limpeza dos terrenos para mitigar o risco de incêndio, numa altura em que as temperaturas começam a subir.
Sobre o resto, a polícia municipal no terreno remete esclarecimentos para a autarquia.
Contactada pela Lusa, a Câmara Municipal da Amadora respondeu com uma nota de imprensa na qual confirmou estar a executar “uma intervenção de limpeza, desmatação e requalificação dos terrenos municipais anteriormente ocupados pelo Bairro de Santa Filomena, localizados na freguesia da Mina de Água”.
Sublinhando que a operação se destina “estritamente à limpeza de terrenos de propriedade municipal”, a câmara justifica que “a proliferação de estruturas ilegais e de hortas desordenadas em contexto urbano acarreta desafios graves de saúde pública e segurança, nomeadamente pela acumulação de materiais inflamáveis e resíduos não orgânicos”.
Ao mesmo tempo, o executivo municipal, liderado pelo PS, acrescenta que a operação em curso “visa a remoção completa de construções precárias” — sem precisar quais e de que tipo — e de “vedações, alvenarias, entulhos e matérias poluentes que se acumularam na zona”.
A câmara detalha que não existem “habitações licenciadas ou residentes nas estruturas precárias agora removidas”, recordando que tem como “prioridade absoluta” assegurar que a zona em questão “se mantém livre de ocupações, preservando a salubridade e a ordem pública alcançadas com o fim do antigo bairro”.
“As pessoas vivem em condições muito, muito precárias e às vezes não é percetível se determinada construção é habitação ou não é. Pelos vistos, foi o que aconteceu aqui em dois casos, mas o que nos surpreendeu e o que surpreendeu bastante os moradores é que não houve qualquer aviso, colocação de edital, informação oral, nada, apareceram só as máquinas”, critica Catarina Morais.
“Agora vamos reunir com os moradores e ver o que é que os moradores pretendem fazer”, adiantou a advogada, que representou moradores em processos — “resolvidos, por enquanto” — em que a autarquia da Amadora declarou que não pretende demolir as habitações em causa.
Pelo meio-dia, duas retroescavadoras desmatavam o terreno e juntavam o entulho num monte de altura já considerável, acompanhadas por vários elementos da polícia municipal. Dali a pouco fariam uma pausa para almoço, mas o plano era retomar os trabalhos durante a tarde.
Mal uma antiga vizinha a avisou, por telefone, Maria Borges dirigiu-se para o bairro onde viveu até aos 35 anos, mas já pouco conseguiu salvar da “hortinha” que cultivava para consumo próprio.
Cana-de-açúcar, feijão, milho, couve, “foi tudo destruído”, incluindo alguns utensílios que guardava dentro de uma barraquinha, como panelas de pressão, para mandar para Cabo Verde.
“Está tudo por debaixo dessa coisa, dentro de um armário, está lá tudo (…) como é que vou tirar?”, interrogava-se, apontando para o monte de entulho.
Maria vive agora numa “casinha”, em Casal de São Brás, também no concelho da Amadora, mas estima que “ainda está muita barraca lá para cima” da íngreme colina do extinto bairro de Santa Filomena.
*** Sofia Branco (texto), Hugo Fragata (vídeo) e António Cotrim (fotos), da agência Lusa ***
SBR // MCL
Lusa/Fim
