
Redação, 17 mar 2026 (Lusa) – Moçambique acusou hoje a organização da Cimeira Africana de Energias de discriminação, alegando que não contratam profissionais negros e desrespeitam matérias relacionadas com o conteúdo local, comunicando que não vai participar no evento, em maio, em Londres.
“Em 2026, este não é o comportamento que esperamos de quem quer que seja que utilize o nome de África e o nosso setor do petróleo e gás”, afirmou, em comunicado do African Energy Chamber, o presidente da Câmara de Energia de Moçambique, Florival Mucave, criticando o “comportamento” da organização relativamente à contratação de profissionais negros.
“É algo que muitos moçambicanos e africanos consideram ofensivo. Os nossos membros não irão a Londres”, acrescentou Mucave.
Moçambique retira-se assim da Cimeira Africana de Energias, organizada pela Frontier Energy Network em Londres, alegando “preocupações” com o tratamento dado aos profissionais negros e à matérias relativas ao conteúdo local.
A nota refere que a decisão reflete a “frustração crescente” entre os intervenientes da indústria moçambicana e africana de petróleo e gás, que argumentam que as plataformas que afirmam representar o setor energético africano devem refletir os valores de inclusão, justiça e participação local que moldam cada vez mais a agenda energética do continente.
O African Energy Chamber indica que a retirada de Moçambique foi motivada por preocupações com liderança da cimeira, que não deu respostas aos repetidos apelos para melhorar a diversidade e a transparência nas contratações.
“A Cimeira Africana de Energias obtém a maior parte das suas receitas de África, mas o seu padrão de discriminação equivale a um bloqueio intencional dos profissionais negros. Gayle Meikle, da Irlanda, e Daniel Davidson, da Escócia, resistiram aos apelos para divulgar dados sobre a diversidade da força de trabalho e recusaram-se também a pôr fim à política de não contratação de profissionais negros e a definir um plano para a diversidade”, adianta-se no comunicado.
O presidente da Câmara de Energia de Moçambique avisou que o país não participa em ambientes onde jovens moçambicanos são “discriminados apenas com base na cor da pele e não nas suas qualificações ou méritos decorrentes da experiência”.
“Numa altura em que estamos a reiniciar megaprojetos de gás e a pressionar para que haja perfurações e ação por parte dos nossos políticos, a mensagem sobre a indústria petrolífera não deve ser sobre um retrocesso no conteúdo local — deve ser sobre como enfrentar a ideologia infeliz dos eventos energéticos africanos, para os quais os profissionais negros aparentemente não são suficientemente bons”, aponta Mucave.
“A incapacidade de manter uma cultura da indústria do petróleo e do gás que promova a inovação, a colaboração e a inclusão em África apenas perturbará as operações de gás, criará dúvidas sobre a indústria e afetará negativamente a nossa indústria, bem como o nosso sucesso futuro, tanto para os moçambicanos como para os africanos. A indústria petrolífera não deve destruir a boa vontade que os africanos têm demonstrado nos últimos anos, apoiando plataformas que os africanos consideram insultuosas para os seus filhos”, concluiu Mucave.
Moçambique é já um dos maiores produtores de gás em África e prevê, dentro de cinco anos, entrar para a lista dos três principais.
O país tem três megaprojetos de desenvolvimento aprovados para exploração das reservas de GNL da bacia do Rovuma, classificadas entre as maiores do mundo, ao largo de Cabo Delgado, incluindo o da TotalEnergies e outro da ExxonMobil (18 mtpa), de 30 mil milhões de dólares (26,1 mil milhões de euros), que aguarda decisão final de investimento, ambos em Afungi.
Soma-se o da italiana Eni, que já produz desde 2022 cerca de sete mtpa, a partir da plataforma flutuante Coral Sul, que será duplicada a partir de 2028 com a plataforma Coral Norte, num investimento de 7,2 mil milhões de dólares (6,2 mil milhões de euros).
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