
Maputo, 20 mar 2026 (Lusa) — Moçambique acumulava no final de 2025 atrasos no pagamento do serviço da dÃvida pública interna de quase 4.660 milhões de meticais (63,2 milhões de euros), por dificuldades de tesouraria, segundo informação oficial a que a Lusa teve hoje acesso.
“A acumulação destes atrasados resultou principalmente de constrangimentos na mobilização de receitas, num contexto de desaceleração económica e pressão sobre a liquidez do Tesouro”, lê-se num relatório do Ministério das Finanças sobre a evolução da dÃvida pública de Moçambique em 2025.
No documento não se adianta informação sobre a eventual posterior regularização desses atrasados, identificando apenas que desse total cerca de 2.515 milhões de meticais (34,1 milhões de euros) correspondiam então a capital e quase 2.145 milhões de meticais (29,1 milhões de euros) a juros.
No relatório acrescenta-se que Moçambique fechou o último trimestre do ano com a despesa de 1.673 milhões de dólares (1.448 milhões de euros) com o serviço da dÃvida pública.
Explica-se também que no “quadro das operações de gestão de passivos” foram realizados cinco leilões de troca de Obrigações do Tesouro — emissões internas, de maturidades mais longas – que venciam em 2025: “Os leilões de troca realizados em março, maio, setembro e dezembro de 2025 aliviaram a pressão do serviço da dÃvida em 30,64 mil milhões de meticais [415,3 milhões de euros), alongando maturidades e reduzindo riscos”.
Segundo os mesmos dados, ao longo de 2025, o ‘stock’ da dÃvida pública “manteve uma trajetória crescente moderada”, passando de 16.775,3 milhões de dólares (14.531 milhões de euros) no primeiro trimestre para 17.138,1 milhões de dólares (14.845 milhões de euros) no quarto trimestre, crescendo assim 2,16%.
“Esta dinâmica revela o maior recurso ao financiamento interno, com crescimento de 6,93%, em contraste com a redução de 1,20% da dÃvida externa até ao quarto trimestre”, aponta-se no relatório.
Ainda neste perÃodo, as taxas de juro das emissões de OT “variaram entre 13,5% e 15,0%”, para uma média final do ano de 14,2%), enquanto as taxas de juro dos Bilhetes do Tesouro (BT, de maturidades mais curtas), “mostraram uma tendência descendente”, para uma taxa média de 12,2%.
Na recente avaliação regular (2025) a Moçambique, concluÃda em fevereiro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) voltou a insistir na “insustentabilidade” da dÃvida pública de Moçambique.
“A dÃvida externa de Moçambique é avaliada como de alto risco de insolvência, enquanto a dÃvida global é avaliada como em situação crÃtica. A dÃvida é atualmente considerada insustentável, principalmente devido à inviabilidade polÃtica de um ajuste abrangente que poderia potencialmente salvaguardar a sustentabilidade da dÃvida”, aponta o FMI, nessa avaliação.
Reconhece igualmente que “riscos adicionais para a deterioração da trajetória da dÃvida” incluem a “contração de dÃvida não concessional em condições desfavoráveis” ou eventuais novos atrasos na retoma dos megaprojetos de Gás Natural Liquefeito (GNL).
Para o FMI, é necessária uma “estratégia abrangente e coordenada” para “reduzir os desequilÃbrios macroeconómicos e ajudar a restaurar a sustentabilidade da dÃvida”, nomeadamente através da “consolidação fiscal por meio da contenção da folha de pagamento”, bem como com medidas do lado da receita.
“É fundamental para restaurar a estabilidade, ao mesmo tempo que cria espaço fiscal para o desenvolvimento e redes de segurança para os mais vulneráveis. A gestão voluntária de passivos baseada no mercado também pode ser necessária para lidar com as severas pressões de financiamento de curto prazo”, defende o FMI, no mesmo relatório.
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