Moçambique entre países de maior risco humanitário do El Niño até 2027 – relatório

Maputo, 08 jul 2026 (Lusa) — Moçambique é um dos países com maior risco de impactos humanitários associados ao El Niño, que deverá persistir até março de 2027, agravando a insegurança alimentar, escassez de água, desnutrição e necessidades sanitárias, segundo um relatório divulgado hoje.

O relatório da organização internacional independente ACAPS, que analisa crises humanitárias e apoia a tomada de decisões no setor da ajuda humanitária, considera as atuais condições do El Niño como fortes e das mais intensas desde 1950.

O documento coloca Moçambique na lista dos países com “maior risco de impactos humanitários severos causados ou agravados pelo El Niño entre julho de 2026 e março de 2027”, juntamente com Afeganistão, Burkina Faso, Etiópia, Guatemala, Haiti, Honduras, Quénia, Madagáscar, Mali, Paquistão, Filipinas, Somália, Sudão do Sul e Sudão.

A análise antecipa precipitação abaixo da média durante a fase inicial — novembro e dezembro – da época chuvosa 2026/2027, na África austral, incluindo no sul de Moçambique.

A ACAPS considera que, neste cenário, poderá ocorrer um início tardio ou deficitário da estação chuvosa, comprometendo a instalação das culturas alimentares de sequeiro num período crucial para a produção agrícola regional.

Acrescenta que as temperaturas deverão permanecer acima da média em toda a África austral entre julho e dezembro deste ano, situação que tenderá a agravar a escassez de água, assinalando que a permanência do El Niño até ao primeiro trimestre do próximo ano poderá prolongar as condições secas ao longo da restante época das chuvas.

“A região deverá continuar a experienciar condições mais secas do que a média até perto do final da estação chuvosa, conduzindo a colheitas de milho abaixo da média, menor disponibilidade de pastagens e de água para o gado e deterioração da segurança alimentar ao longo de 2027”, lê-se.

No relatório identifica-se um risco acrescido de incêndios florestais e queimadas descontroladas: “A combinação de condições mais secas e mais quentes aumentará o risco de incêndios nas áreas de savana árida do Maláui, Moçambique e Zimbabué entre agosto e outubro”.

A ACAPS alerta ainda que os efeitos climáticos ameaçam cruzar-se com outras vulnerabilidades já existentes, recordando que Moçambique continua exposto aos impactos da crise internacional dos combustíveis e fertilizantes, associada às perturbações recentes no Médio Oriente, situação que contribui para aumentar os custos de produção agrícola e os preços dos alimentos.

Segundo a organização, os choques provocados pelo clima irão cruzar-se com problemas socioeconómicos já existentes, aumentando a pressão sobre os meios de subsistência, o acesso à água, a nutrição e os serviços de saúde.

Sustenta que “os países com maior risco de impactos relacionados com o El Niño serão Madagáscar, Maláui, Moçambique e Zimbabué”, uma vez que os choques climáticos deverão agravar fatores de vulnerabilidade já presentes, incluindo crises económicas, conflitos e os efeitos de eventos anteriores.

Aponta que esse cenário ameaça resultar em níveis mais elevados de insegurança alimentar, insegurança hídrica, desnutrição e necessidades humanitárias durante 2027.

O Governo moçambicano cortou na terça-feira a previsão de crescimento económico de 2,8% para 0,59% em 2026, devido aos impactos das inundações.

“As cheias de janeiro de 2026 afetaram cerca de 724 mil pessoas nas províncias de Maputo, Gaza, Inhambane, Sofala, Manica e Zambézia, com impactos significativos sobre a pobreza, segurança alimentar e os meios de subsistência”, disse, no final da reunião do Conselho de Ministros, o porta-voz do órgão.

Segundo Inocêncio Impissa, o Plano Global de Recuperação e Reconstrução pós-cheias aprovado nesta reunião, de 102 mil milhões de meticais (1.400 milhões de euros), promove “uma recuperação resiliente, inclusiva e sustentável das áreas afetadas pelas cheias”, assegurando a estabilização socioeconómica, recuperação dos meios de subsistência e reforço da capacidade de resposta a futuros desastres.

As estimativas do Governo apontam para danos físicos avaliados em 69,5 mil milhões de meticais (955 milhões de euros) e perdas económicas de 41,37 mil milhões de meticais (569 milhões de euros).

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