
Maputo, 28 mai 2026 (Lusa) — Moçambique é o país com mais mortes registadas na rota migratória da África Oriental e Austral, com pelo menos 175 vítimas entre abril de 2015 e outubro de 2020, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).
De acordo com o último relatório do Projeto Migrantes Desaparecidos (MMP, na sigla em inglês), programa da OIM que monitoriza mortes e desaparecimentos de migrantes em todo o mundo, as mortes documentadas no território e nas fronteiras moçambicanas é ainda considerada mínima, devido à subnotificação dos incidentes.
“O MMP registou 175 mortes em Moçambique que ocorreram entre abril de 2015 e outubro de 2020 (…), tornando Moçambique no país com o maior número de mortes registadas na rota da África Austral e Oriental”, lê-se no documento, consultado hoje pela Lusa.
Entre os episódios mais marcantes identificados, a agência das Nações Unidas assinala o caso de 64 migrantes etíopes encontrados mortos num camião na província de Tete, centro do país, vítimas de asfixia durante o transporte clandestino.
“Embora Moçambique seja o país com maior número de incidentes entre os países de trânsito da Rota da África Austral e Oriental, parece ter as estimativas mais baixas (pelas respostas) de outros incidentes conhecidos, indicando que não se registam muitas mais mortes”, refere-se.
No documento indica-se ainda que os fluxos migratórios em Moçambique envolvem sobretudo cidadãos do Maláui, Zimbabué, Etiópia, Somália e Tanzânia, que utilizam o país como corredor, principalmente, para África do Sul, sendo muitos destes migrantes transportados de forma irregular “para ocultar o grande número de pessoas em movimento”, prática associada ao aumento dos riscos durante a travessia.
“Os fatores que impulsionam os movimentos irregulares através de Moçambique incluem a relativa facilidade de migração facilitada pelos passadores e, em alguns casos, pelos funcionários, os custos de viagem mais baixos em comparação com outras rotas e a prevalência de redes de contrabando e tráfico que operam nesta rota”, aponta a agência da ONU.
De acordo com o relatório, a violência é o principal risco registado ao longo do corredor moçambicano, já que casos documentados incluem agressões, roubos, sequestros para resgate e assassínios, muitas vezes perpetrados por redes de tráfico e contrabando. Avança-se também que muitos migrantes são expostos a condições ambientais severas, incluindo falta de água, de alimentos e abrigo durante longos percursos a pé, além de riscos de doença e ausência de assistência médica.
Nos restantes países da rota, o relatório aponta padrões semelhantes de risco e vulnerabilidade, com destaque para a Tanzânia, Maláui e Zimbabué. Na Tanzânia – considerada um dos principais países de trânsito -, os migrantes enfrentam condições extremas, com longas travessias a pé e transporte irregular, sendo frequentemente deslocados em veículos sobrelotados.
No Maláui, identifica-se a violência e o tráfico de pessoas como riscos predominantes, referindo a existência de redes organizadas que exploram migrantes ao longo do percurso. Já no Zimbabué, etapa final para muitos migrantes antes da África do Sul, destacam-se os perigos associados à travessia do rio Limpopo, onde ocorrem afogamentos e ataques de animais.
De forma transversal, no documento sublinha-se que a rota é marcada por múltiplos perigos, indicando que os riscos enfrentados pelos migrantes permanecem subdocumentados, apesar da evidência crescente de mortes e desaparecimentos, e associando esta realidade à falta de vias seguras e regulares de migração.
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