
Maputo, 12 fev 2021 (Lusa) – Analistas polÃticos defendem que a morte, por doença, do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), Eugénio Mussa, é “um duro golpe” na estratégia de combate aos grupos armados em Cabo Delgado.
Eugênio Mussa morreu na segunda-feira em Maputo, vÃtima de doença, anunciou em comunicado o Ministério da Defesa Nacional de Moçambique.
Muhamad Yassine, especialista em Relações Internacionais e docente na Universidade Joaquim Chissano, afirmou à agência Lusa que a morte de Eugênio Mussa abalou as expetativas do Presidente moçambicano de impor o poderio das FADM na guerra contra os grupos armados, atendendo que o militar comandou o “Teatro Operacional Norte”, que cobre a provÃncia de Cabo Delgado, na luta contra os insurgentes na região, antes de passar a Chefe do Estado-Maior General.
“O Presidente da República nunca escondeu que tinha na mira o conflito armado em Cabo Delgado, quando nomeou o general Mussa”, enfatizou.
Para o académico, o facto de Eugênio Mussa ter combatido com aparente sucesso em Cabo Delgado antes de ser promovido para a função em que ficou por algumas semanas também gerava confiança no Presidente da República, Filipe Nyusi, e na opinião pública em relação à guerra naquela provÃncia.
“O pouco tempo em que ficou na última função que exerceu e o facto de as matérias de cariz militar serem tratadas com rigoroso sigilo em Moçambique tornam uma incógnita a estratégia que Eugênio Mussa iria seguir na guerra em Cabo Delgado, mas todos os sinais indicavam que o chefe de Estado confiava no rumo que o seu general iria dar à s ações combativas”, disse Muhamad Yassine.
Juma Aiuba, analista radicado na provÃncia de Nampula, norte do paÃs, onde também nasceu Eugénio Mussa, considerou a morte do oficial “uma contrariedade”, uma vez que tinha trazido uma grande esperança na capacidade de derrotar os grupos armados em Cabo Delgado.
“Quando assumiu o comando do Teatro Operacional Norte, no final do ano passado, teve uma retórica de muito encorajamento para as suas tropas no terreno e deu a entender que há uma guerra em Cabo Delgado que deve ser assumida pelos militares, porque não é um assunto de polÃcia”, afirmou Juma Ayuba.
Com Eugénio Mussa no comando do Teatro Operacional Norte e depois na chefia do Estado-Maior General, “os grupos armados que atuam em Cabo Delgado parecem estar recolhidos aos seus redutos e incapazes de protagonizar ataques ousados, numa base diária”.
“Pelo menos, não temos tido relatos de ataques diários pelos insurgentes, ainda que a guerra em Cabo Delgado pareça estar longe do fim”, referiu Juma Aiuba.
Aiuba disse ainda que os “elogios sentidos à s qualidades de Eugénio Mussa” por parte do chefe de Estado durante as exéquias fúnebres mostram que Nyusi tinha uma confiança pessoal no militar e na sua capacidade de conduzir a guerra em Cabo Delgado.
Ivan Mazanga, especialista em Relações Internacionais, afirmou que as FADM precisam rapidamente de “institucionalizar e socializar-se na estratégia e espÃrito de combate” que Eugénio Mussa deixava transparecer.
“Seria um erro se a estratégia de guerra em Cabo Delgado estivesse personificada em Eugénio Mussa, porque era o fim dessa estratégia, as FADM precisam de institucionalizar e socializar-se no espÃrito de combate que ele transparecia, pelo menos no seu discurso”, frisou.
Ivan Mazanga assinalou que a violência armada é sempre uma questão de Estado cuja abordagem deve ultrapassar a esfera da competência de uma pessoa, como o general Eugênio Mussa, apesar da “grande influência que os grandes lÃderes militares exercem sobre as suas tropas”.
“Como os próprios militares dizem, quando o general tomba, pegam na sua arma e continuam o combate, penso que é essa a divisa que devem encarnar”, frisou.
No discurso que proferiu durante a cerimónia oficial das exéquias fúnebres, o Presidente moçambicano descreveu Eugênio Mussa como um militar determinado com a erradicação do terrorismo.
“O general Mussa reafirmava publicamente a sua determinação e comprometimento patriótico, manifestava a sua convicção no combate e erradicação do terrorismo em Moçambique, particularmente na provÃncia de Cabo Delegado”, enfatizou Nyusi.
A violência armada em Cabo Delgado está a provocar uma crise humanitária com mais de duas mil mortes e 560 mil pessoas deslocadas, sem habitação, nem alimentos, concentrando-se sobretudo na capital provincial, Pemba.
Algumas das incursões de insurgentes passaram a ser reivindicadas pelo grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico desde 2019.
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